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1. Há uma estética preguiçosa no modo como se movimenta e age perante o jogo; a imagem dos braços caídos e das pernas que se arrastam sugere a indolência com que se propõe atingir os objectivos; na atitude distante e fria de quem parece indiferente ao que acontece à volta esconde-se um bom malandro, armado até aos dentes para reduzir à insignificância os guarda-costas que vigiam cada um dos seus passos.
Nos cenários bélicos que o enquadram, Hélder Postiga responde com a descontracção de quem recusa ser devorado pela tensão da luta, suportado em soluções técnicas para todas as dificuldades. Sabe mais do que mostra e é mais perigoso do que parece; o inimigo acaba por decifrar toda a verdade, mas nem sempre vai a tempo de evitar os estragos.
2. Ponta-de-lança de todo o espaço ofensivo, que domina os movimentos na zona central, foge às marcações com mestria e revela à-vontade nas faixas laterais, Postiga provoca desequilíbrios com argumentos indecifráveis à primeira vista: é rápido e hábil a utilizar a aceleração (sobretudo quando leva a bola); sabe empregar o corpo para defender posição (é perfeito a jogar de costas para a baliza); sendo um cumpridor escrupuloso das obrigações colectivas, no seu futebol há armas individuais como drible, desmarcação, passe, cruzamento e remate com qualquer dos pés. Ao fim de oito meses, o balanço da aventura inglesa não é famoso: está a perder tempo no Tottenham com o Euro'2004 à porta.
3. No FC Porto a sua ausência não tem sido fácil de gerir. McCarthy é mais estrito tecnicamente e, apesar da eficácia na relação com os guarda-redes, não apresenta a mesma versatilidade criativa - é mais certeiro e contundente no tiro, mas participa menos no jogo.
Postiga dá profundidade, amplitude de movimentos e nunca se queixa da solidão; quando recebe a bola longe da equipa, sabe guardá-la até à chegada dos companheiros para depois alimentar as etapas finais da aproximação à baliza - ele nem imagina a falta que fez em Alvalade, na Luz e em Manchester, por exemplo.
À técnica requintada deve agora acrescentar o instinto assassino de ponta-de-lança, nada de alarmante porque, fenómenos à parte, o golo está para o avançado como a expressão total do talento para os guarda-redes: é um produto do tempo e do trabalho.
4. Hélder Postiga vive desafio emocional de supremo grau de dificuldade. Não é primeira opção num conjunto da segunda metade da liga inglesa, tendo a certeza de que seria referência absoluta numa das melhores equipas da Europa; atravessa período decisivo do seu crescimento mas está condenado à dúvida e à desconfiança.
Ao convocá-lo para a Selecção Nacional, Luiz Felipe Scolari sobrepôs critérios de continuidade a meras circunstâncias adversas, prova de que o futebol português não vira costas aos talentos que gera e está empenhado em defender o seu património mais valioso.
Hoje e sempre, é importante que Postiga, Hugo Viana e Quaresma percebam que não estão sozinhos na luta contra a mediocridade e a estupidez. Mesmo sabendo que, em certos casos, o combate já ultrapassou os limites do razoável.
Os expoentes máximos do jogo feio
É uma potência que não valoriza o espectáculo e se recusa a pensar noutra coisa que não seja o resultado; se jogar feio é um estilo, não ganhar há 22 anos é uma tragédia, que em vez de servir para discutir princípios é utilizada como mote para unir as tropas.
Comandada pelo velho general Trapattoni, mergulhada numa renovação que parece desordenada e tem sido discutida internamente, a Itália já mostrou que se pode contar ela. Para aborrecer mas também para lutar pelo título. O costume.
PASSE CURTO
Em câmara lenta
Rossato marcou ao Boavista de livre directo, com um tiro ao ângulo superior esquerdo da baliza de William. O incómodo foi quando o telespectador percebeu que, afinal, não tinha visto o lance em câmara lenta mas à velocidade normal. O que parecia ter sido um grande golo foi, também, um frango muito razoável.
Goleador providencial
Hugo Henrique tem sido o abono de família azul na recta final da SuperLiga. Agora que Antchouet compensa a perda de memória correndo desalmadamente, o brasileiro soma e segue. Depois de marcar ao V. Guimarães (1-0), foi a vez de bisar com o Gil Vicente (2-0). Providencial.
Um espertalhão
Zaccheroni explicou como venceu o Benfica: deixou Recoba de fora, fê-lo entrar na altura certa e, pronto, tornou-se um génio no banco. Sugiro que, para a próxima, faça o mesmo com Vieri, para mexer ainda melhor na equipa. Um espertalhão, este Zac.
Vamos com calma
Nem o escrete salvou Luisão do primeiro impacto negativo e só aos poucos tem reclamado prudência nas avaliações precipitadas. Sempre que coisas destas acontecem, lembro-me de um tal Aldaír, de quem se dizia mais ou menos a mesma coisa...