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1 Saiu do banco e marcou dois golos que entusiasmaram companheiros, técnicos, adeptos e restantes amigos; ele, Hélder Postiga, reduziu os festejos a uma corrida preguiçosa, com dedo em riste e expressão altiva; o momento solene frente ao Polónia Varsóvia, em meados de Setembro, foi transformado em celebração pessoal, quase introspectiva, carregada de um enfado estranho para a felicidade que provocara. Havia alegria no ar, principalmente a que emanava das bancadas, mas ele preferiu manter a distância e a aparência de inexplicável descontentamento. A sua mensagem tinha destinatário (o treinador) e motivo (entrara com o comboio em andamento). Quinze dias depois, com meia dúzia de golos de vantagem, José Mourinho deu-lhe a titularidade. Um jogo infeliz fez o resto: ouviu, com atraso mas ainda a tempo, reprimenda pública arrasadora e saiu dos convocados durante duas semanas. Oito meses depois é um avançado de referência do futebol europeu. E foi o grande ausente da final da Taça UEFA.
2 Postiga recordará hoje o episódio com sorriso envergonhado, porque essa é a reacção natural sempre que alguém é confrontado com episódios da infância; talvez até se ruborize perante a insensatez da análise precipitada de uma situação passageira - todos sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, alguém ocuparia o seu lugar no banco. Para quem cresceu aberto a enriquecer as extraordinárias condições naturais com ensinamentos de ordem técnica e táctica, foi esse conflito, com origem em excessos próprios da juventude, que abreviou o caminho para a afirmação plena. Por momentos pensou que, sem saber tudo, já recolhera informação suficiente para não estudar mais; que já estava apto a cumprir a máxima ambição de ser titular do FC Porto, sem entender que essa era apenas uma etapa transitória para o que José Mourinho lhe reservara: transformá-lo num dos melhores jogadores do Mundo no seu lugar.
3 A insolência de Hélder Postiga, vista a esta distância, revelou uma personalidade vincada; confirmou a rebeldia como arma de grandes jogadores, mas constituiu solene aviso de que a auto- -estima, quando em excesso, também pode ser obstáculo à afirmação de qualquer jovem. Nestes casos, o êxito depende da inteligência do jogador mas, principalmente, da qualidade do treinador - e a esse nível não pode queixar-se, porque está em boas mãos. Mourinho encontrou a fórmula ideal para extrair grande parte do potencial de um ponta- -de-lança que não vive obcecado com os números, mas já aprendeu os princípios básicos da vida que escolheu. Das lições retirou os ensinamentos que potenciaram as armas de craque sem limitações geográficas: quase perfeito a jogar de costas para os defesas, vantagem que o torna perigoso mesmo quando está longe do golo; fácil condução da bola em corrida; critério nas acções a um/dois toques, das quais sai sempre em condições de receber mais à frente; físico para resistir aos choques e capacidade técnica para não ser desarmado com facilidade.
4 Foi este avançado de decisões rápidas, a quem a bola obedece sem discutir; este miúdo valente, que nunca se esconde, por sentir que pode ser útil em qualquer fase da construção do jogo; este talento com imaginação para inventar e lucidez para alimentar o senso comum, que o FC Porto não teve na final de Sevilha e cuja ausência foi lamentada antecipadamente. Um avançado de remate fácil, que rejeita o egoísmo e utiliza o drible na perfeição: porque tem saída para os dois lados e, ao contrário de outros, dispõe sempre de sentido prático. Hélder Postiga possui o jeito especial de transformar o que parece supérfluo em dado indispensável para atingir determinado fim; em fazer do adorno o ponto de partida de acções cuja dimensão ninguém mais consegue medir na totalidade; em utilizar o ar disperso e distraído como arma de predador insaciável. Um avançado que cultiva a ideia de andar por ali em missão diplomática mas acaba por revelar-se um terror para o adversário.