1. Quando levantou a cabeça, viu espaço atrás do último defesa, mediu a desmarcação do avançado e executou um dos passes mais extraordinários de que há memória no futebol dos nossos dias, Rui Costa agiu como o artista que perde controlo sobre o destino da sua obra-prima; enquanto o estádio se debruçava em delírio sobre o relvado, sinal de que a explosão estava cada vez mais próxima, Rui Costa accionou o mecanismo que o fez desligar do Mundo e encontrar refúgio na memória sofrida de tempos recentes; quando a bola entrou na baliza ajoelhou-se no relvado, incrédulo e com expressão emocionada, até a equipa sentir o desconforto do isolamento quase imperdoável de quem concebera o instante mágico. Shevchenko foi o primeiro a cair-lhe nos braços. Levava um agradecimento pessoal – não fazia mais que a sua obrigação – e transportava também uma homenagem colectiva – a dos verdadeiros amantes do futebol.
2. Toda a grandeza do espectáculo se concentrou em S. Siro: o passado de catorze Taças dos Campeões; o presente de uma constelação única à escala planetária; o futuro em jogo na avaliação do potencial de duas grandes equipas. E houve ainda o teste de fogo ao Milan de Ancelotti, esse grupo de gente corajosa que partiu à reconquista da glória em conflito com algumas regras básicas do "calcio": ideia assente na posse da bola; orientação global de cariz ofensivo; soluções tácticas referenciadas, quase todas elas, a partir da arte imensa que dá expressão ao colectivo. Mas S. Siro serviu ainda de palco a vários despiques individuais, todos eles imaginários, todos eles reais: Figo, Rivaldo e Zidane – três Bolas de Ouro; Raúl e Shevchenko – avançados de referência que não são meros goleadores; Maldini e Roberto Carlos – provavelmente os melhores defesas da última década; Ronaldo e Nesta – os ausentes de luxo.
3. Na grande parada, a fragilidade foi detectada imediatamente: o lugar de Rui Costa não estava definido na peça. Ele, o génio sem currículo; o talento sem glória; a figura de culto que ainda não rompeu definitivamente a incompreensível resistência de quem valoriza mais o acessório (visibilidade) que o essencial (talento), estava ali disposto a rebater a argumentação que o penaliza e a desmontar todo o raciocínio que o coloca, no conceito geral, um ou dois degraus abaixo do patamar onde vivem os seus pares de verdade. Pediu a palavra e apresentou as suas razões. O discurso foi tão eloquente que todos se calaram para o ver jogar. Durante mais de uma hora, Rui Costa foi distribuindo pérolas por todo o terreno, processo iniciado nos caminhos povoados do meio campo, esse labirinto perigoso no qual se movimentou com o saber dos grandes mestres.
4. Quando S. Siro viu a placa com o número 10, indicação de que estava a chegar ao fim uma das mais eloquentes demonstrações de classe individual dos últimos anos – só comparável ao que fizera no Inglaterra-Portugal do Euro-2000 –, Rui Costa pôde sentir o arrepio reconfortante de ver um estádio inteiro de pé a aplaudi-lo, também como vencedor da sua luta pessoal. O melhor do Mundo, em qualquer actividade criativa, é um mero dado estatístico, baseado em abusos de opinião que nem sempre contemplam o sentido de justiça. É um jogo virtual que oscila como as acções da Bolsa, acima e abaixo em poucos instantes, montanha-russa inexplicável à luz da razão. Por isso, tomando como referência a noite de 26 de Novembro de 2002, e até prova em contrário, que só fenómenos como Figo, Zidane, Ronaldo, Rivaldo, Totti, Henry, Beckham, Raúl, Ortega ou Deco podem oferecer, Rui Costa é, aos meus olhos e no momento de escrever estas linhas, o melhor jogador do Mundo.