1. Vem de Guimarães o fascínio de uma orquestra surpreendente, que funciona como refrescante aragem de bom gosto e versatilidade; gente que transporta o espírito de aventura de quem se propõe alcançar o êxito sem desfazer a ordem que dá forma à complexa, mas já assimilada, estrutura táctica. No seu funcionamento está implícita a rotina do treino exaustivo mas, ao mesmo tempo, a capacidade de adaptação a todas as circunstâncias do jogo; está o conservadorismo do estilo, pelo apelo que faz às tradicionais características do jogador português (inteligência, toque, drible e velocidade), mas também a inovação de sacrifício e amplitude de funções. O resultado é uma equipa admirável, que se distingue por abrangência territorial e mobilidade. Quando, no caminho, os músicos se cruzam com a inspiração nascem algumas das mais belas sinfonias tocadas nos relvados portugueses esta época.
2. Sendo um conjunto que cerra fileiras quando lhe põem à prova a capacidade de sofrimento; sendo verdade que, em momentos de aperto, encara a luta como assunto de Estado que a todos diz respeito, é a predisposição ofensiva que melhor o caracteriza. O segredo está no posicionamento e no modo como explora os fluxos criativos constantes dos seus grandes inspiradores, Pedro Mendes e Nuno Assis mais importantes que Fangueiro, Hugo Cunha e Rafael. Se ter a bola em ataque continuado constitui problema, também pela dificuldade em encontrar referência efectiva na área – Romeu tem cumprido o papel em rota de colisão com as suas melhores qualidades –, a arma de efeitos mais devastadores é a transposição do jogo, o desdobramento fulminante, a facilidade de construir em poucos segundos claras situações de finalização, processo com origem nos efeitos da pressão alta e sistemática. Quando liberta as unidades mais rápidas e talentosas em situações de descongestionamento no espaço que dá acesso à baliza adversária, o V. Guimarães torna-se absolutamente irresistível.
3. Ao mesmo tempo, está encontrada mais uma prova de que jogar com prazer, assumindo o respeito por todas as plateias, tem a devida recompensa. Em cinco meses o Vitória deu três internacionais A ao futebol português; mantém a Liga dos Campeões como objectivo claro e criou laços de afecto com os adeptos em geral. Ser uma grande equipa é questão presa por meros pormenores: pela gestão emocional que ainda oscila em demasia; por exageros incontroláveis de quem não está habituado a viver estes momentos extraordinários; pela paixão que a faz tremer perante o agigantamento dos adversários; pelo aperfeiçoamento que é ainda possível introduzir à capacidade de adaptação a todas as circunstâncias tácticas – tem jogadores que tornam quase indiferente a distância entre o 5x3x2 e o 3x5x2, e que podem, tranquilamente, assumir o 4x4x2 e o 4x3x3. Na luta pelo 2º lugar, o Vitória tem uma vantagem emocional indiscutível, que seria crime desperdiçar, perante um Benfica à procura de estabilidade e um Sporting em permanente desassossego.
4. Na lógica da valorização excessiva do sucesso, neste caso de superação das melhores expectativas, quem comanda está autorizado a escolher discurso e imagem exterior; tem igualmente o direito de defender uma linha ideológica e os princípios que mais lhe convierem; pode até definir o conceito estético. Augusto Inácio escolheu picardia, confronto e o choque das palavras, isto é, todo um estilo mais adequado a quem passa por dificuldades. O conflito que fere a sensibilidade exterior está na discrepância entre a alegria e elegância que a equipa transmite e a crispação nem sempre razoável do seu treinador. Depois de um jogo assombroso, no Restelo, por exemplo, perdido por mero acaso competitivo, Inácio assumiu perante as câmaras de televisão que lhe apetecia chorar. Eu, se por hipótese fantasiosa, concebesse, gerisse e fosse o rosto de uma equipa tão brilhante, também era capaz de um exagero, mas ao contrário: anunciaria formalmente que era o homem mais feliz do Mundo.