A ingenuidade de Nani

Gostei de ler a entrevista de Nani ao diário "I". Principalmente, porque é sempre interessante ver alguém do mundo do futebol responder de forma directa e sem tabus às questões colocadas. No passado já algo distante - quando dava os primeiros passos no jornalismo - era comum ler, ver e ouvir coisas do género. Hoje, com os clubes a limitarem cada vez mais o acesso aos protagonistas e com estes a terem receio de dizer algo que não caia bem no goto dos responsáveis, passam-se meses sem se conseguir ler uma entrevista interessante.

Entre vários considerandos sobre a carreira, o extremo do Manchester United revela algum desalento por não ser titular da Selecção Nacional. Se considera ter razão... é legítimo que o faça. Aliás, grave seria que Nani - e todos os restantes futebolistas que, por norma, não fazem parte das escolhas iniciais dos seus treinadores - se acomodasse ao estatuto de suplente. Fui, sou e serei sempre um defensor de todos os que ambicionam mais e melhor. Desde que, acrescente-se, trabalhem para o merecer.

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Nani reforça a sua tese, afirmando que passa a vida a ser incentivado/elogiado nos treinos mas que, por ser bom rapaz, acaba por ser prejudicado. O futebolista avisa mesmo que, se calhar, precisará de mudar de atitude para merecer ser visto com outros olhos. "Talvez tenha de começar a agir de forma diferente, como outros agem, de forma parva", refere.

Volto a frisar que a sinceridade do jogador me merece todos os elogios. Mais: estando dentro da Selecção, Nani deve saber muito bem o que está a dizer. Contudo, creio que "deitar cá para fora" tais considerandos, a escassos dias do primeiro dos dois decisivos duelos com a Bósnia é... errado.

Mesmo sabendo que a entrevista foi realizada na semana passada, Nani devia ter feito contas e perceber que, aquando da publicação da mesma, as suas palavras podiam ser mal recebidas no seio do grupo. Por Queiroz, desde logo, mas também por alguns dos companheiros a quem a carapuça das "atitudes parvas" possam servir.

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Nani, tenho a certeza, não o terá feito por mal, mas a verdade é que foi ingénuo ao proporcionar mais uma polémica em torno da Selecção quando, nesta altura, todo o País devia unir esforços no sentido de Portugal não falhar a presença na África do Sul no próximo ano. Mas, como se viu com a "novela" envolvendo Ronaldo, parece que este estágio está destinado a ser marcado por assuntos laterais. Como se não fosse suficiente ter de tratar apenas de arranjar maneira de eliminar os bósnios...

PS - Ronaldo sempre veio a Portugal, trouxe os relatórios dos médicos do Real, fez mais alguns exames, voltou a Madrid e, segundo o próprio, sábado estará na Luz a incentivar os companheiros da Selecção. Podia ser de outra forma? Podia, mas esta, confirme referi no artigo anterior, é a mais adequada. Para servir de exemplo para situações futuras envolvendo jogadores lesionados e para que Ronaldo possa continuar a ser o capitão de equipa.

PS 1 - Simplesmente dramático o desaparecimento de Robert Enke. Para quem ainda tinha dúvidas, o dinheiro ajuda a comprar muitas coisas, mas a felicidade, decididamente, não é uma delas. O futebol ficou mais pobre, mas o Mundo também.

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