1. Diz o manual de gestão das equipas que os conflitos entre comandantes e comandados só valem a pena se deles não resultarem vencedores e vencidos. O raciocínio é simples: se o treinador esmaga por autoridade, o jogador reduz-se ao funcionário escrupuloso que abdica da paixão; se o jogador faz prevalecer estatuto e rebeldia, amparado pela cumplicidade das bancadas e pelos interesses perversos dos dirigentes, adeus treinador. Quando Carvalhal cria as condições para a rescisão de contrato com Brasília, falta medir o senso comum da justiça para antecipar as suas consequências no grupo. Quando Rochemback faz com Peseiro o mesmo que Beckham fez com Queiroz no Real Madrid, assobiar para o lado também não é a melhor solução.
2. Exemplar foi o modo como José Mourinho resolveu, no início de 2002/03, a desavença com Vítor Baía. Ao contrário da leitura que muitos fizeram, apontando como certo o êxito de um sobre o outro, a vitória foi do FC Porto, que preservou a liderança intocável e confirmou a recuperação física e psicológica de um dos melhores guarda-redes da Europa, trave mestra do ciclo de ouro então iniciado. O recente caso de Benni McCarthy, resolvido aos poucos, é distinto: não resulta de conflitos directos mas da desconfiança potenciada pelas declarações imprudentes do jogador no momento da dolorosa transição técnica.
3. Porque era uma aposta do treinador que partiu e tinha um passado problemático com aquele que estava a chegar; porque o desafogo financeiro criou condições para contratar um fenómeno mundial (Fabiano) e recuperar a paixão perdida prematuramente (Postiga), McCarthy desceu do trono de melhor marcador da SuperLiga até à lista de possíveis negócios. Naquele ar disperso de quem não mede todas as responsabilidades, encarou a fatalidade como mera etapa da montanha-russa em que o futebol está transformado. Provou, mais uma vez, que o castigo não o diminui na perspectiva do rendimento desportivo; que a picardia lhe desperta os sentidos; que a desconfiança o torna ainda mais feroz. Fernández chamou-o por exclusão de partes; ele aproveitou para interferir na história do campeonato.
4. Na distribuição dos papéis no filme azul e branco, McCarthy escolheu o que melhor se adapta ao estilo gingão de atirador temível. Ele é o "cowboy" insolente que não tem pressa mas chega a tempo; que entra sem bater à porta e dispara sem avisar; que, não sendo mais rápido do que a própria sombra, anda por ali de cigarro ao canto da boca escudado na pontaria infalível. É essa confiança escandalosa em si próprio que lhe permite reagir ao erro sem constrangimentos; é por detectar automaticamente a iminência da glória que está pronto a festejar mesmo falhando os primeiros tiros. Quando o golo surge, não se esquece do que disse, do que ouviu e do que lhe fizeram. Mete aquele sorriso malandro que fere uns (pela desconfiança) e outros (por medo), até cair nos braços de companheiros e adeptos. Ao menos esses nunca duvidaram dos seus méritos.
A justiça reclamada por Maniche
No ano em que o FC Porto foi campeão europeu de clubes e a Selecção atingiu a final do Euro'2004, Portugal tem cinco jogadores nos 50 candidatos à Bola de Ouro. Se era mais ou menos adquirido que Deco, Figo, Ronaldo e Ricardo Carvalho iriam estar na lista, Maniche constituía a mais séria das dúvidas e o perigo maior de injustiça.
Ao fim de uma época a jogar ao mais alto nível, fundamental nos maiores fenómenos colectivos do ano, Maniche tem acesso directo ao livro de reclamações: é merecedor dos louros que outros se preparam para receber.
A intranquilidade de Ricardo
Ricardo está revoltado com os jornalistas pela apreciação ao lance do primeiro golo do FC Porto, à semelhança do que fizera para rejeitar críticas no Liechtenstein - se querem a minha opinião acho que, sobretudo no segundo caso, a sua defesa tem fundamentos técnicos. O problema é outro: para dar sentido ao azedume precisava de toda a razão. E não a tem.
Direito por linhas tortas
Antchouet recebeu o passe de Juninho, dominou em corrida e disparou para a baliza do Beira-Mar. O segundo toque parecia ter deitado tudo a perder mas, como está tão habituado ao erro, agiu como se nada tivesse acontecido e fez golo, terminando direito e bem aquilo que construiu por linhas tortas. É para compensar as vezes em que finaliza torto e mal aquilo que constrói por linhas direitas.
O compromisso de Geovanni
No segundo jogo como titular na SuperLiga, Geovanni respondeu com actuação ao nível do seu potencial técnico. O brasileiro tem sido suplente porque joga mal quando é primeira opção; mas também não ganha a titularidade quando entra bem e é decisivo. Farto de incompreensões, resolveu pôr as coisas no lugar frente ao V. Setúbal: para o flanco direito, o Benfica não tem melhor do que ele. Agora só falta que se comprometa um pouco mais com a causa encarnada.