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1. Porque o estilo assenta na confiança ilimitada em qualidades técnicas reconhecidas à distância, nunca se perturba; porque acredita que pode rectificar distracções e ausências, nunca se deprime; porque revela sinais esporádicos de convicção, nunca chega a parecer verdadeiramente infeliz. Quando o treinador lhe indica o banco não se revolta; ferido no orgulho de quem cresceu íntimo da bola, Geovanni prefere encolher os ombros, sorrir para dentro e adaptar ao desconforto pessoal as palavras do eterno Sócrates, estrela do Brasil de 1982, proferidas no final do célebre jogo com a Itália: "Perdemos o Mundial? Mau para nós, mas pior ainda para o futebol."
2. Jogador com soluções individuais riquíssimas, Geovanni resolve em espaços curtos porque tem drible imprevisível e aceleração fantástica; em corridas de longa distância não se dá por vencido, escudado nos benefícios de travagem e mudança de direcção; por ser inteligente na defesa do espaço e hábil a esconder o tesouro que leva nos pés, é um perigo a aproximar-se da baliza. Como define bem o último passe e dispõe de remate forte, tanto pode pedir o auxílio dos companheiros como entregar-se a acções solitárias. Naqueles cenários de alta tensão, que despertam o instinto guerreiro, apelam à coragem e reclamam disponibilidade total para a luta, é precioso um futebolista lúcido que baixe as pulsações, tenha poder de observação e decida na plena posse das qualidades físicas e mentais. Só convém não exagerar...
3. Geovanni continua sem perceber que a insolência levada ao extremo cria o anticorpo da quebra de solidariedade; ainda não mediu a fronteira que separa o estilo descontraído que lhe serve de mote para a criação e o exagero displicente que sugere, dentro e fora do campo, grave desvio à causa colectiva. Como nenhum jogador está acima do bem e do mal, chega a ser intolerável o aparente conformismo com que reage à desinspiração; porque do seu talento se deve esperar sempre o truque milagroso, a inércia é penalizada com o assobio, com a recriminação generalizada e, já o sabemos, com o castigo de ver os outros jogar. Definitivamente, a esse estímulo ele reage; com essa decisão superior ele não concorda. Já é um começo.
4. Distante por temperamento, Geovanni resigna-se à adversidade e entrega-se ao fatalismo; como perde o vínculo às instruções do treinador, às obrigações com a equipa e às expectativas dos adeptos, chega a ser um corpo estranho na comunidade. Por temer o risco da indolência, Camacho voltou a deixá-lo no banco em Alvalade; minutos depois de o ter lançado, a recriminação foi ao ponto de ameaçar com a viagem antecipada para as cabinas. Já em desespero de causa, Geovanni pegou na bola e progrediu; guiado pelo instinto dos predestinados, executou remate espectacular e pôs assinatura na obra de arte que deixou o Benfica à beira da Liga dos Campeões. O novo herói confirmou assim os pressupostos da velha questão: tem atitude de menos para ser titular mas é bom de mais para ser suplente. Alguém sabe como se resolve um problema destes?
Era o que faltava a Quaresma
Como se não bastasse o inferno de diagnósticos mal feitos, da total ausência pedagógica do treinador e de outras patifarias levadas a cabo em Barcelona, Ricardo Quaresma acaba de ser vítima da suprema infelicidade. Frente ao Espanhol, à saída de um cruzamento, foi vítima de acidente que pôs fim ao sonho de jogar o Europeu de Esperanças.
Wome é o nome do carrasco acidental, que não foi maldoso na acção fatídica mas revelou as mesmas preocupações de um elefante numa loja de porcelana.
PASSE CURTO
E o tempo joga a favor
Moreira confirmou a fantástica época que o põe entre os melhores portugueses da actualidade. Como está ainda numa fase ascendente, o tempo joga a favor; como tem evoluído imune às desconfianças, que só agora abrandaram, tem condições para se tornar uma referência a nível europeu.
Ponto da situação
Num jogo de excepção (o "derby") e perante o adversário mais difícil (Simão), Miguel Garcia resumiu em hora e meia o percurso que o levou a titular do Sporting. Perfeito a posicionar-se e a entrar aos lances, cada vez mais hábil a subir no terreno. Olhos nele, é um lateral com futuro.
Com valor acrescido
A presença do FC Porto na final da Liga dos Campeões é um feito extraordinário. Agora que a lei em vigor parecia ser só a do dinheiro, a proeza tem o valor acrescido da qualidade.
Uma estrela mundial
No Riazor, o FC Porto foi uma equipa assente em pressupostos colectivos e na qualidade individual que lhe dá forma. Para lá do reencontro com Derlei, o campeão recuperou Deco. Para quem já se tinha esquecido, o mágico arrasou na expressão genial que o fez recuperar o estatuto de um dos melhores jogadores do Mundo.