A irreverência de Ronaldo

1. Se o futebol não proíbe o atrevimento e no seu estado mais puro estimula o direito à diferença, é fundamental reconhecer que, nos dias de hoje e se calhar de amanhã, também não aconselha – e em certos casos penaliza – desvios consideráveis às normas catalogadas como sendo de bom comportamento. Este futebol gerido ao estilo daquelas fábricas de produção em série não excomunga liminarmente desalinhados e irreverentes, mas está preparado para os combater; sorri carinhosamente à rebeldia saudável, mas tem como objectivo diminuir-lhe intensidade e impacto; procura a austeridade como pedagogia para uniformizar as equipas, mas submete o grau de intransigência ao talento de quem está em causa e à perspectiva do lucro que esse funcionário poderá proporcionar num futuro próximo.

2. Cristiano Ronaldo foi a surpresa da apresentação oficial do Sporting 2002/03. No fim, em vez de seguir o guião adaptado para aquelas circunstâncias, ou seja, de se mostrar agradecido, sensibilizado, comovido até com a oportunidade concedida, confirmando que aquela era a mais feliz de todas as noites, decidiu olhar em frente, medir o que tem para dar e revelar o que pretende da vida: "Os sócios ainda não viram o verdadeiro Ronaldo, isto é só o começo." A frase, como é evidente, está despojada de maldade; afasta do seu autor instintos hipócritas (o que é bom) e acrescenta-lhe a confiança quase insolente de quem recusa ser devorado sem resistência pela máquina gigantesca na qual está inserido – o que é melhor ainda, para ele, para o Sporting e sobretudo para o futebol.

PUB

3. Há muitas histórias que exemplificam o desassombro futebolístico assumido nestes moldes, a mais emblemática de todas contada por Jorge Valdano nos seus "Cadernos" de 1997. Consta que nos anos 60 um rapaz com fraca figura, magro e descalço, decidiu ir ao Santos tentar a sua sorte. Quando lhe perguntaram em que posição jogava, respondeu que era número 10. O treinador esclareceu-o que para essa função já havia Pelé, ao que o desconhecido miúdo ripostou: "Também já tinha pensado nisso e creio que a solução é que o Pelé jogue um pouco mais à frente." O exemplo peca por exagero, naturalmente, mas remete para a essência do que está em causa nas palavras do jovem avançado do Sporting: sem convicção e uma brisa de loucura é mais difícil a um jogador mostrar tudo o que tem dentro de si e muito mais fácil entregar-se à rotina fatal que o torna presa fácil.

4. A questão pode colocar-se de outra forma, supondo que aquelas palavras constituíram perigosa ameaça, a vários níveis, para as mentes mais conservadoras – a ideia de que o jogador é só para jogar continua a ter adeptos: e se Ronaldo tiver mesmo razão de que ainda nada vimos do seu talento? E se o tempo confirmar, como é convicção de quem o conhece, que estamos perante um jogador com vastíssima gama de soluções técnicas para a posição de avançado-centro – uma combinação explosiva de drible, posição, toque, remate, rapidez de raciocínio e velocidade de pernas? Quando robustecer fisicamente e atingir a maturidade, talvez a sua declaração no fim do jogo com o PSG faça todo o sentido. Só que daqui por um ou dois anos, "isto" continuará no começo e o destino dos adeptos do Sporting é ter acesso a notícias de um talento superior expresso algures na Europa.

Deixe o seu comentário
PUB
PUB