A jóia de Barcelos

SINAL – O jogo estava por definir, naquela fase em que é cedo para justificar prémios ou castigos; em que as coisas ou são insignificantes ou acabam por tornar-se efémeras, mesmo que haja exemplos de decisões consumadas nos primeiros minutos. Ricardo Fernandes pegou na bola sobre a esquerda e fez sinal imperceptível a um companheiro para correr; indiferente ao engarrafamento e ao reduzido espaço entre a linha lateral e a de fundo, Ali arrancou seguro de que a bola havia de aparecer à sua frente; Paulo Alves, que a tudo assistiu no coração da área, percebeu que ia sair cruzamento; Luís Campos, no banco, era capaz de apostar que ia haver golo. Houve.

MAGIA – Na segunda parte, quando já é suposto estar tudo estudado, e numa fase de choques, ressaltos, picardia e passes curtos normalmente interceptados, Ricardo Fernandes executou um lançamento longo, para o flanco direito, no limite da força e da colocação; Douala acelerou na hora certa, apanhou a bola mesmo em cima da linha de fundo e centrou com perfeição; no segundo "take" do mesmo filme, o papel de Paulo Alves não mudou: viu, acreditou, desmarcou-se, ganhou posição e fez golo. Um grande golo, por sinal, que fez rebobinar a fita para confirmar a magia do momento a que assistíramos.

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CÓDIGOS – Estes exemplos não têm outra utilidade para lá de mostrarem que as equipas possuem códigos secretos só dominados pelos seus componentes. No Gil Vicente, sempre que um dos elementos entra em acção toda a gente está preparada para intervir, porque toda a gente sabe que daquele pé esquerdo a bola sairá jogável, de qualquer maneira, para qualquer lado. Não tanto pelo que fez com o Beira-Mar, apesar de ter feito muito e bem, mas pela qualidade técnica, pela inteligência dos caminhos que percorre, pela visão periférica, Ricardo Fernandes é uma revelação da I Liga e grande esperança do futebol português.

VER SEM OLHAR – Há futebolistas que só vêem quando olham (não são casos perdidos, requerem alguma paciência e até pode dar-se o caso de executarem bem...); os que mesmo olhando não vêem (o melhor é pô-los a correr muito, na esperança de um milagre); e há os outros, os que vêem tudo mesmo quando estão de olhos fechados (esses são os jogadores de excepção, grupo no qual se inclui Ricardo Fernandes). É a surpreendente jóia de Barcelos, descoberta por Luís Campos na II Liga, um jogador que só aos 23 anos atingiu o patamar superior do futebol.

RISCOS – É sempre bom desconfiar: a regularidade é inimiga dos artistas; tem muito para aprender e os riscos de ficar pelo caminho não são virtuais; ainda não se definiu perante situações delicadas; falta-lhe maturidade e tudo depende daquilo que o Sporting (clube ao qual está ligado) pretende fazer da sua carreira. Passado um terço da I Liga 2001/02, correndo também o jornalista o risco do exagero, o ponto da situação de Ricardo Fernandes é o seguinte: em talento puro, e como organizador de jogo, abaixo dos quatro primeiros nenhuma equipa tem um jogador assim.

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