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A mais-valia de um campeão

1. A proposta futebolística aglutinava todas as sensibilidades e os seus pressupostos respeitavam o sentido histórico da instituição; a ideia nasceu grande e sedutora, orientada por objectivos ousados e confiança levada aos limites da insolência. A um FC Porto liderado pelo maior génio do dirigismo desportivo português de todos os tempos, enquadrado por competência administrativa, técnica, médica e de relações exteriores, José Mourinho sugeriu um projecto para o qual apresentou prioridades, escolheu jogadores e definiu estilo. A obra que o trouxe até ao topo do reconhecimento europeu, com o suporte de metodologias que em Portugal nunca registaram semelhante evidência vitoriosa, tem as marcas da qualidade do treino e constitui importante registo da sua evolução nos últimos 20 anos.

2. Sem a base científica dos grandes estudiosos, Mourinho deu credibilidade à teoria porque a sustentou em permanência; aplicou conceitos e explicou fundamentos porque exerce a autoridade regido pelo equilíbrio entre poder e respeito. Na sua personalidade esmagadora perante o grupo, que mobiliza adeptos, intimida adversários e domina as câmaras de televisão, concentram-se conhecimentos vastos, convicções inabaláveis, capacidade de motivação e a atitude positiva de quem aborda a vitória como inevitável desfecho para o trabalho desenvolvido.

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3. Sendo um conjunto sistematizado com rigor milimétrico, no qual as funções estão perfeitamente definidas e a orientação estrutural tem as marcas da ordem apertada, o FC Porto apresenta como resultado da organização colectiva um futebol dominado pelo bom gosto e pelo prazer da iniciativa. Para cumprir as regras básicas dos mandamentos azuis e brancos, Mourinho apetrechou-se com jogadores responsáveis, inteligentes e talentosos, que souberam acrescentar espontaneidade aos automatismos aprendidos nas aulas apetecidas em que se transformaram os treinos. Numa equipa que respeita posições e prevê o itinerário da bola; que estabelece uma cadeia ampla de movimentos e vive cinco toques à frente do adversário, a segurança é total, a felicidade uma consequência e o factor surpresa um aliado.

4. Ao fim de dois anos, o FC Porto mantém fidelidade ao princípio de não solicitar os favores da sorte: confia nas qualidades do exército de elite e assume a responsabilidade de escolher o seu destino. Porque já perceberam os benefícios dos factores repressivos da gestão global, os jogadores aceitam o guião e a disciplina férrea com o sorriso de quem mediu o significado das vitórias para a valorização individual de cada um. Ganhar, sendo sempre um passo importante para a eternidade, pode não exceder o mero dado estatístico; fazê-lo em continuidade, com exuberância, inovação e orgulho, consolida referências definitivas no tempo e garante um lugar na memória colectiva. Essa é a mais-valia do campeão FC Porto e o legado, ainda incompleto, de José Mourinho ao futebol português. Há vinte anos, Sven-Goran Eriksson também inaugurou um ciclo, encontrou respostas e sugeriu saída para a estagnação vigente; desde essa altura que não havia fenómeno tão marcante e inspirador.

Passe curto

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O central de luxo. Ricardo Carvalho assinou época de sonho, no papel de grande baluarte defensivo do FC Porto e de grande figura da SuperLiga. O crescimento feito em continuidade, com argumentos cada vez mais sólidos, transforma-o em jogador apetecível no mercado europeu. Ele é um central de luxo, a meio caminho da perfeição.

O espanto da versatilidade. Nenhum jogador em Portugal possui a versatilidade de argumentos técnicos e tácticos de Maniche. Numa época em que Deco foi menos genial e mais funcionário, Maniche assumiu o papel de multiplicador do potencial da equipa. Um espanto.

As grandes equipas têm um. Todas as grandes equipas têm um grande médio-centro - o Real Madrid não tem e foi o que se viu. É ali que tudo começa: o equilíbrio, o funcionamento, o estilo, a ideia, a garantia do cumprimento das regras colectivas. O FC Porto tem Costinha, delegação do treinador em campo. Está muito bem servido.

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Início e fim da obra. Derlei foi jogador do campeonato até 22 de Dezembro de 2003. A fúria sustentada em golos, criatividade e presença constante, conferiu-lhe o estatuto de fenómeno raro ao mais alto nível. O inspirador da máquina 2003/04 recuperou a tempo de acabar a obra. É justo que o faça.

Vítor Baía e Jorge Costa - as traves mestras

Vítor Baía e Jorge Costa são as traves mestras do edifício. Em fases e circunstâncias distintas, ambos tiveram problemas internos para resolver. Ficou provado que os conflitos só valem a pena se não tiverem vencedores e vencidos. Se ganha a autoridade, adeus jogador; se ganha a rebeldia, cuidado que o colectivo pode não resistir. Como o futebol só sobrevive com jogadores, o melhor é discutir, tirar conclusões e seguir em frente. Cada dia mais fortes, unidos e, não menos importante, vencedores.

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