À falta de aquisições sonantes - Fábio Coentrão e Zoro não suscitam muita (ou pouca) animação -, o defeso encarnado tem sido marcado pela entrada em cena de um personagem inesperado. Joe Berardo, figura conhecida de outras áreas, teve um súbito ataque de benfiquismo e passou a ter opinião sobre tudo o que diz respeito ao clube.
De início tive a sensação que o empresário, em consonância com Luís Filipe Vieira, estava apenas a utilizar o seu nome e os respectivos conhecimentos do mercado bolsita para, sem gastar um euro, fazer as acções da SAD recuperarem algum do valor perdido em tempo recorde. Esta ideia foi reforçada com as declarações do visado que, quase em directo, informou não querer cargos no clube, que não lhe interessava o poder e que somente tinha a intenção de ajudar a recolocar o Benfica no topo. Na gíria da Bolsa, tratava-se de uma OPA tudo menos hostil.
Porém, sem que nada o fizesse prever, o posicionamento táctico de Berardo alterou-se. Radicalmente, acrescente-se. Continuou a dar entrevistas num ritmo alucinante; deixou de estar interessado em apenas 60 por cento das acções e assumiu-se disposto a comprar tudo caso fosse necessário; comunicou a disposição de criar um fundo com 50 milhões de euros para reforçar a equipa de futebol e, mais interessante e inesperado, começou a falar à líder. Ou melhor: à dono e não à presidente. A OPA passou a ser qualificada de tudo menos... amigável.
Arrasando com Rui Costa, Berardo acertou em “três coelhos” com uma só cajadada. O futebolista, o presidente que viabilizou o regresso do jogador e o técnico que o acolheu de braços abertos, directa ou indirectamente, foram alvo do inesperado ataque do madeirense. E, convenhamos, esta atitude não pode ter sido tomada de ânimo leve. Berardo sabia bem que, ao dizer que o clube parece um lar de terceira idade, ia comprar uma série de conflitos. E se o fez foi porque considerou adequado, pois se é verdade que o empresário não tem o dom da palavra, está longe de não saber o que quer (ou deve) dizer.
Perante estes desenvolvimentos, para mim não restam dúvidas que Berardo quer mandar (ou pelo menos ter voz activa) no Benfica. Mais: pretende, a exemplo do que faz com tantas outras coisas, ganhar dinheiro com o clube. O problema é que, depois de ter dado a imagem de salvador, o madeirense já perdeu a simpatia de milhares de sócios, accionistas e simpatizantes dos encarnados. E, acredito, também não deve ser visto com bonitos olhos pelos futebolistas e equipa técnica. Por outras palavras, se conseguir mesmo ter o poder na Luz vai, muito provavelmente, ter que mudar mais do que aquilo que julgava ser necessário.
Uma nota final para Luís Filipe Vieira. O presidente que costuma ser lesto a apelidar de papagaios quem, dentro do clube, ousa discordar das políticas oficiais, ainda não veio a público reagir à segunda vaga da intervenção de Berardo. Gostava de saber as razões do silêncio...