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1 - A força da proposta transformou-a num projecto institucional, o seu êxito confirmou José Mourinho como figura esmagadora no futebol do século XXI. Da sua mente prodigiosa nasceu uma equipa que sabe tudo de si e do adversário; prevê cada passo e recusa-se a aceitar a dúvida como parte do plano; acredita no que faz e interiorizou que nem mesmo essa coisa da sorte e do azar pode influir no resultado final. Naquele exército obstinado, todos jogam, tocam, defendem, atacam, correm e ganham. A superioridade é esmagadora, inexpressiva e fria, até ao momento do golo que derrete o gelo e revela uma comunidade unida, feliz e realizada. Prova de que o futebol também pode ser um lugar onde as pessoas se entendem, se completam e encontram tudo quanto procuram.
2 - O Chelsea é uma formação construída com base em valores colectivos, que respeitam um modelo, geraram um estilo e, não tarda, estarão na origem de uma escola. Mourinho escolheu os melhores e lançou-lhes o desafio do futuro, sustentado em ideia atractiva e em novas tendências do treino que nunca tiveram registo tão deslumbrante e vitorioso. Naquele carrossel extraordinário, o toque é previsível porque tem um itinerário definido e o funcionamento é rápido porque a bola viaja com precisão. A síntese revela um conjunto evoluído na sua estrutura, solidário na distribuição das tarefas e articulado nos movimentos sem bola. Não é um pelotão a desfilar na parada, é apenas uma equipa de hábitos, que joga de memória, para a qual espontaneidade, instinto e magia só têm cabimento enquadrados pelo fio condutor da ordem global.
3 - Ganhar num clube que perdia há 50 anos constitui a obra-prima de um mestre. Esse feito notável quebrou a monotonia, consolidou o vínculo com os adeptos e confirmou o seu mentor como herói absoluto. Perante a crise geral de referências afectivas, José Mourinho agarrou-se a John Terry e Frank Lampard como imagem das raízes que pretende criar daqui para a frente – os galácticos hão-de chegar das camadas jovens, foi ele quem o disse. Porque não se contenta com pouco e tem condições para voar ainda mais alto; porque é um génio suficientemente ambicioso e contundente para não se acomodar com as marcas num clube em concreto e no futebol português em geral, não tardará a usufruir de estatuto idêntico aos de Ferguson no Manchester United e de Wenger no Arsenal.
4 - Mas José Mourinho é grande em demasia para se satisfazer com a glória efémera de um título inesquecível, razão pela qual não é exagerado colocar-lhe o desafio da História. Stamford Bridge pode ser o berço de um fenómeno ainda maior, herdeiro de outros referenciados a partir de treinadores imortais, conquistas proeminentes, inovação e um legado estético inesquecível. Agora que tem condições para manter o que está bem e aproximar-se ainda mais da perfeição (não concluiu um ciclo, apenas lhe deu mais força), este Chelsea que fala português poderá, em breve, representar para o futebol o mesmo do Milan de Sacchi ou do Barcelona de Cruijff. Nessa altura, Mourinho será um treinador eterno e não apenas o fenómeno que marcou uma época. Se querem saber a minha opinião, é esse o seu destino.
Areia para os olhos do povo
Apesar de só haver discussão pública (e doentia) para o escândalo dos “penalties”, dos golos duvidosos e restantes casos isolados, sempre ouvi dizer que as maiores vigarices no futebol mundial têm origem na interferência directa na condução da hora e meia – coisa de bons árbitros que, quando lhes dá para a asneira, manipulam, jogam, decidem e ninguém se apercebe. A TV levou o futebol a milhões de pessoas mas, ao fim de todos estes anos de divulgação em massa, o adepto comum ainda não percebeu que andam a atirar-lhe muita areia para os olhos.
Flanco direito:
O extremo exilado
São gritos de quem brilha sem ser visto, joga ao mais alto nível sem ser reconhecido e só não caiu em total esquecimento porque as notícias têm a substância de factos e números indiscutíveis: é uma das figuras da liga belga e quase todas as semanas marca um golo – já lá vão onze. Depois de ter sido figura em destaque no ”calcio” dos grandes craques, no Euro’2000 e, apesar da derrocada portuguesa, se ter salvo individualmente no Mundial de 2002, Sérgio Conceição vive em Liège um exílio indecente para quem era, até há muito pouco tempo, um dos melhores extremos da Europa. Indecente, disse bem.
As rajadas do dragão caçador
O dragão sempre foi um caçador temível, mesmo quando utilizava espingardas artesanais. Sinal de súbita prosperidade, comprou uma metralhadora sofisticada e disparou sucessivas rajadas sem sentido. No meio de tanta bala perdida acertou em Ibson, o brasileiro que é dos médios mais interessantes da SuperLiga, actual responsável pela segurança processual do futebol portista Só por isso a dúvida faz sentido: terá valido a pena tanto desperdício?
Um homem de palavra
Em fins de Janeiro disse que em Maio acertaria contas com quem assobiava a equipa. Quatro meses depois, prova de que é homem de palavra, cumpriu a promessa. Luisão nem precisou de falar: reforçou o peso na equipa; mostrou que é referência no grupo; conquistou os adeptos; convenceu boa parte dos jornalistas que o criticaram precipitadamente e ainda marcou o golo da festa. Fez um discurso de hora e meia sem abrir a boca e, no fim, ainda saiu em ombros do palco. Não deixa de ter a sua graça.