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1 - Também para o avançado-centro os primeiros anos funcionam como prólogo de intimidade com a função que desempenha. Fenómenos à parte, o ponta-de-lança só atinge nível superior quando consegue juntar precisão, paciência, maturidade e sentido de orientação, valores aos quais o ser humano só acede com a experiência. Aos 37 anos, João Tomás depurou todas as vantagens da veterania mas continua orientado por elementos de entusiasmo juvenil, recusando-se a perdê-los com o tempo, como sucede à maioria dos jogadores nas suas circunstâncias. Para a riqueza da sua expressão futebolística muito tem contribuído o Rio Ave, transformado no lugar idílico onde todos vivem as mesmas ambições, comungam os mesmos sentimentos e ainda se dão ao trabalho de procurar a felicidade em conjunto.
2 - João Tomás há muito que deixou para trás as marcas de ansiedade, pressa e desordem que caracterizam adolescentes em busca de glória. Tornou-se um avançado clássico, perigoso em qualquer circunstância ou fase do jogo, que aperfeiçoou a arte de adivinhar intenções, antecipar-se aos factos e chegar melhor aos momentos de decisão. Exerce com aparições fantasmagóricas definidas pela pontaria de um só tiro; em correrias lançadas de longe ou em desvios cirúrgicos executados nas imediações da baliza. Sempre que se movimenta, age como se tivesse encontro marcado com a bola e o golo, processo cuja explicação nem ele é capaz de encontrar. Os grandes avançados são fantasmas que aparecem e desaparecem à velocidade do som.
3 - Essa intuição que o leva a estar sempre onde deve é acompanhada pelo instinto de decisões impiedosas nos duelos com os guarda-redes. Jogador de toda a frente de ataque, abrangente, intenso e multifuncional, João Tomás não perde frieza quando chega o instante de assinar as obras. É impressionante como, depois de tanto correr e lutar longe da baliza, se dá ao luxo da serenidade onde muitos se entregam à loucura de exercícios atabalhoados e sem sentido; é notável que, onde as pulsações aceleram, seja capaz de respirar fundo e colocar-se perante o momento mais delicado do jogo como se estivesse a dar o pontapé de saída. A sua carreira não faz justiça a todas as qualidades que possui. Nela devia haver mais Benfica e melhor Betis; mas devia também ter evitado peregrinações menores pelo oriente do Mundo, que deram em dinheiro o que lhe roubaram em visibilidade.
4 - Agora que superou a marca de 100 golos na Liga, João Tomás conserva intacta a vertigem de outrora, com a qual combate a voragem dos anos. Chega a ser diabólico o modo como esconde, manobra e aplica os segredos do último toque, sinal de que mantém forças para sobreviver ao esquecimento e dar eficácia ao talento misterioso dos pontas-de-lança. Há ainda muita luz no crepúsculo do velho goleador, porque o futebol continua a ser paixão de uso diário e o golo tem efeitos hipnóticos capazes de revigorarem a vitalidade de qualquer veterano em bom estado de conservação. João Tomás aproveitou a idade para aperfeiçoar a precisão e o olfato dos finalizadores mais experientes; mas o estatuto de herói que provoca terramotos emocionais por onde passa tem-lhe permitido, aos 37 anos, regressar à infância quase todas as semanas.
Capitão Luisão é a referência
A importância do brasileiro na equipa vai bastante para lá das suas qualidades técnicas, táticas e físicas como central. Jardel é bom naquilo que faz, Garay é ainda melhor mas nenhum deles exerce o peso relativo do capitão, que acentua a liderança pelo facto de estar na Luz há dez épocas. Estas considerações relevam fator não palpável e por isso menos reconhecido que contribui para hierarquizar jogadores e medir a sua influência nos coletivos que integram: a autoridade que orienta o exército e o torna mais forte, ao mesmo tempo que intimida quem está do outro lado da barricada.
Estranha invasão do presidente
Quando o presidente vai à cabina da sua equipa ao intervalo de um jogo, pela gravidade que isso tem no bem-estar do grupo, só pode ser para anunciar que o treinador está despedido. De outra forma não faz sentido. Se em momento tão delicado a palavra de um dirigente se sobrepõe à do míster, então o míster, de facto, nada está lá a fazer. Godinho Lopes foi apenas ingénuo mas tem de entender que, ao invadir assim o espaço sagrado do balneário, está a desrespeitar o treinador. O Sporting já tem problemas que cheguem. Não são precisos mais.
Chico-esperto versus ingénuos
Luiz Adriano começou por ser um chico-esperto; evoluiu para mau caráter odioso e, no fim, encontrou boas razões para rir-se da ingenuidade de quem olha para o desporto como atividade orientada por ética inegociável. A indignidade cometida pelo brasileiro (marcar com 21 jogadores a olhar para ele) não era punível pelo árbitro e a própria UEFA teve de ser criativa na argumentação para castigá-lo – foi mais ou menos como prender Al Capone por fuga aos impostos. Uma trapaça daquelas não pode valer apenas um jogo de suspensão. Jogo esse que, já agora, serve para quase nada.