A picardia como arma fatal

1. A dúvida nunca será totalmente desfeita, porque à memória nem todas as verdades interessam e o fundamento poético das lendas prefere a imaginação ao pragmatismo; porque o tempo molda a realidade quando lhe dá jeito alimentar a ficção, a História será sempre relativa como conceito absoluto. Ao século XXI chega o rosto envelhecido de Alfredo Di Stéfano, primeiro "melhor jogador do Mundo" que o futebol reconheceu como tal, estreante do altar a que só Pelé e Maradona tiveram acesso. Mas chega também o registo do amante de pequenos conflitos, do general zeloso do estatuto no Real Madrid, porteiro implacável à entrada de forasteiros no grupo que dominava em todos os capítulos. No livro da sua vida, Ferenc Puskas é brilhante no retrato desse percurso agitado que terminou em amizade eterna. O mesmo não pôde dizer Didi, o genial bi-campeão do Mundo pelo Brasil, que só conheceu a parte perversa do temperamento de D. Alfredo.

2. Num dos primeiros treinos de Didi no Real, Di Stéfano não descansou enquanto não lhe meteu a bola por debaixo das pernas. Acentuou a ousadia e gritou "olé"; o outro geriu a revolta em silêncio e seguiu o caminho. A lenda regista que a tarde valeu pela arrebatadora actuação do brasileiro, sublime gestor de jogo, primeiro marcador de livres directos em "folha seca", médio com lugar em todas as enciclopédias, para quem bola, drible, remate e passe não tinham segredos. Sempre que se cruzaram, Didi foi melhor, mas nunca deixou de pensar na retribuição da habilidade. Quando chegou a altura, Di Stéfano fechou as pernas a tempo, roubou a bola, sorriu vitorioso e pôs as coisas no lugar: "Meu menino, isso não se faz ao papá." Realidade ou ficção, a picardia sustenta a explicação para o fracasso do craque brasileiro no Real Madrid; mais ainda, a ela se atribui a origem de preconceitos racistas entretanto diluídos, mas de que o inglês Cunnigham (na fronteira entre os anos 70 e 80) e o colombiano Rincón (anos 90) foram vítimas cruéis.

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3. No Portugal-Alemanha do Mundial de andebol, o guarda-redes germânico travou com êxito esmagador as iniciativas atacantes da selecção nacional – defendeu remates de longe e de perto; com e sem oposição; os potentes e os habilidosos; os previsíveis e os impensáveis. Não satisfeito, Fritz agiu com os portugueses como Di Stéfano fez perante Didi, isto é, assumindo abusivamente o direito à humilhação – sucessivos actos provocadores a cada vitória nos duelos individuais, com o indicador em riste, usando palavras indecifráveis para expressar o que em linguagem desportiva significava "meus meninos, para entrar aqui é preciso bater à porta". O problema é que a picardia há muito deixou de ter exclusivos e Portugal guardara o ás de trunfo. A obra de Álvaro Martins começou no devaneio artístico de um livre de sete metros falhado; Fritz adivinhou o truque, defendeu e explodiu numa alucinação indigna. Pobre rapaz, não podia imaginar que estava a meter-se com um dos maiores talentos do andebol mundial.

4. Seguiu-se uma extraordinária demonstração de virtuosismo. Álvaro Martins resolveu fazer justiça pelas suas próprias mãos e marcou seis golos nos restantes seis remates que fez à baliza, todos com um conceito estético diferente: em rosca para a direita e para a esquerda; entre as pernas e as mãos do guarda-redes; por cima e por baixo; pelo ângulo mais aberto e pelo mais fechado – só faltou marcar de cabeça. Na parte final do despique, Fritz esboçou a defesa sem confiança; sofreu o golo (estava à espera de quê?) e riu sem jeito, resignado à evidência de, aos 38 anos, estar ainda em idade para receber aulas de bom comportamento. Álvaro Martins abriu as portas da lenda, porque o desporto também é feito de pequenas coisas e a memória tem caprichos inexplicáveis. Não chegou para ganhar o jogo, mas resgatou o orgulho de uma equipa destroçada e devolveu auto-estima aos adeptos. O que, em cenário de decepção, é suficiente para ser declarado inesquecível.

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