1. À eternidade estão subjacentes conceitos estéticos e de eficácia que os defesas dificilmente conseguem cumprir – é impossível reduzi-los a números, como os avançados; não têm a magia dos médios; é raro serem tão espectaculares quanto os guarda-redes. Por isso a história levanta reticências em considerá-los expoentes do jogo, em aceitá-los entre aqueles cuja expressão do talento obedece aos parâmetros vulgares, ou seja, os mais valorizados pela sensibilidade comum. Beckenbauer foi o único a estar no topo das listas de melhores do século XX elaboradas por toda a parte e o registo mundial não contempla muito mais. Refere José Leandro de Andrade (1901-1957), a "maravilha negra", figura do Uruguai campeão do Mundo em 1930; Domingos da Guia (1912-2000), o "mestre divino" que ainda hoje é considerado o melhor defesa da história do futebol brasileiro, e regista outros nomes dispersos – Bobby Moore, Figueroa, Passarella, Scirea, Maldini, Hierro, Nesta...
2. No âmbito nacional, contam-se pelos dedos de uma das mãos os componentes da dinastia que percorreu o tempo até Fernando Couto: Félix Antunes, Germano de Figueiredo (à volta de quem se gera a unanimidade de ter sido o maior de todos), Vicente Lucas e Humberto Coelho. Mas significará isso que os defesas – e, para facilitar, consideremos apenas os centrais – são de facto menos importantes que os restantes elementos da equipa? Quando afirmou que o Milan de Sacchi e Capello resistiria á saída de Van Basten, Gullit e Rijkaard, mas não ao fim de Baresi, Johan Cruijff alertava para uma das regras menos reconhecidas do futebol: os grandes artistas são caros; os grandes defesas não têm preço.
3. Nos últimos dez/quinze anos, Portugal foi bafejado pela sorte e teve alguns centrais de nível mundial como Ricardo Gomes (salvo melhor opinião, o melhor de todos), Mozer, Aloísio, Luisinho, Ricardo Rocha, Aldair, Gamarra e André Cruz. Talvez pela dificuldade de avaliar o potencial do defesa; talvez porque o foco das atenções se desvia facilmente para outros espaços geográficos (do campo e do Mundo); talvez ainda pela valorização excessiva de conceitos estéticos, de fluidez de discurso, de visibilidade exterior ao próprio fenómeno futebolístico, o melhor defesa-central da SuperLiga, no desempenho da função de líbero, continua a viver tranquilamente, quase em segredo, com a camisa 6 do Belenenses, já conformado com aquilo que o destino lhe reservou: chama-se Wilson, está com 33 anos, é angolano e tem tanta criatividade e imaginação como os talentos mais reconhecidos do futebol actual.
4. Wilson transformou-se no obstáculo mais apetecível da SuperLiga – ultrapassá-lo é uma festa, ser desarmado por ele é quase uma honra. No seu perfil de craque estão todos os argumentos necessários ao papel que desempenha: não fere a sensibilidade exterior com grosserias; prevê o passe e antecipa os movimentos; chega primeiro por ser mais rápido mas também porque está no sítio certo antes de as coisas acontecerem e é quase invencível no um para um – se o avançado tem duas ou três opções para o enganar, ele responde com seis ou sete alternativas para o travar. Wilson é a personificação de que nem todas as estrelas se detectam à vista desarmada. Pela qualidade técnica, pelo modo como interpreta a função, pela autoridade absoluta em que se transformou, é incompreensível que o seu percurso só tenha passagens por Olhanense, Elvas, Caldas, Gil Vicente e Belenenses. Ironia para um jogador tão veloz e intuitivo, foi logo atrasar-se na construção da carreira que merecia.