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1 Em campo, ele é o representante do treinador, o prolongamento da ideia, a extensão da voz, o depositário de uma estratégia previamente definida e assimilada. Ricardo Nascimento aceita a tremenda responsabilidade e resume a imagem de ordem e magia; de referência estrutural e esperança colectiva; de estudo e improvisação. Na sala de máquinas que muitos põem a funcionar à força de músculo e gestos mecanizados; onde nascem craques apenas por presença excessiva e grosserias cometidas em nome da inteligência táctica; naquele espaço amplo também habitado por quem só brilha com a bola nos pés e não faz a menor ideia dos benefícios de jogar em equipa, introduz a velha magia do grande futebol e recupera a nobreza de uma função criativa inesgotável mas tantas vezes deturpada.
2 A expressão maior da sua arte é a capacidade para melhorar todas as acções em que participa. Porque vê sem olhar e antes de receber a bola já sabe o que vai fazer, está centésimos de segundo à frente dos adversários; porque revela precisão incrível no passe (seja ele curto ou longo, lateral ou profundo) e tem um jeito especial para alimentar a progressão curta e associada, é o denominador comum da transição para o ataque; porque sai bem do drible e tem uma técnica refinada, aumenta o perigo à medida que se aproxima da baliza. O seu jogo é abrangente (dá a bola e vai prestando auxílio por todo o terreno), insinuante (está em contacto permanente com a equipa) e venenoso (os lances têm saída para as costas da defesa). Como resultado, ele é o maestro mais respeitado pela sua orquestra de todos quantos actuam no escalão principal.
3 Ricardo Nascimento faz do relvado uma tela imensa, muito maior do que as que utiliza, nos tempos livres, para expressar os dotes de pintor virtuoso. Durante hora e meia estimula talento e inspiração; recupera a sensibilidade indispensável a um artista e agrega o espírito de aventura próprio de quem ama o futebol; quando reúne as condições ideais faz a viagem que o leva à infância e ressuscita alguns sonhos desfeitos pelo caminho. Agora que chegou aos 30 anos alimenta, sem revolta, o misterioso desperdício de uma carreira ao mais alto nível, protagonista de história vulgar que as circunstâncias da etapa vila-condense estão a tornar absolutamente extraordinária.
4 Por não negociar determinados princípios futebolísticos; por rebeldia nem sempre aceite pela cadeia de comando e por algumas lesões graves que travaram a afirmação, o êxito passou-lhe ao lado na melhor fase da vida (a juventude). Culpa de um temperamento pouco dócil e de convicções fortes, mas também da escassa visão e tacto nulo de muitos treinadores que não o souberam entender e avaliar. No Dragão, frente ao FC Porto, como sumptuoso cérebro do fantástico Rio Ave de Carlos Brito, Ricardo Nascimento apenas confirmou aquilo que já se sabia: com meio campeonato percorrido, é o jogador mais exuberante e regular da SuperLiga 2004/05. Sinal de que valeu a pena esperar mais de uma década para ver cumprir o projecto grandioso desenhado no início dos anos 90.
Um divórcio há muito anunciado
Parte resignado um dos melhores estrangeiros da história do futebol português. Zahovic pode até despedir-se com mágoa, mas não o fará, por certo, com sentimentos de injustiça. O grau de comprometimento com o jogo desceu para valores inaceitáveis e há muito que ele e os benfiquistas dormiam em camas separadas. A assinatura do divórcio é apenas o cumprimento de uma formalidade.
A única premissa válida
Os arautos da disciplina criticaram a “brandura” leonina para com Liedson. Salvo melhor opinião, uma patetice absoluta. O castigo a aplicar pelo Sporting a quem chega atrasado de férias é um assunto da responsabilidade exclusiva de dirigentes, treinador e jogador. Uma premissa deve orientá-los: equipa e adeptos não podem ser prejudicados. Perdoem-me se estou enganado, mas palavras como “detenção”, “arguido”, “acusado”, etc. só valem para criminosos de verdade.
A drástica rotura com o passado
Sete de Gelsenkirchen já saíram (Ferreira, Carvalho, Mendes, Deco, Alenitchev, Derlei e Carlos Alberto); sete dos novos ainda não se impuseram (Pepe, Areias, Meireles, Hugo Leal, Quaresma, Fabiano e Postiga); três dos que ficaram têm estado aquém do que já lhes vimos (Nuno Valente, Costinha e Maniche). O FC Porto preparou a transição mas resvala para uma daquelas épocas que antecedem o ano zero de algo que está para vir. Se era para romper totalmente com o passado, Del Neri não precisava de ter saído. E alguma coisa havia de ganhar.