A velocidade e a precisão

1. Arma com prestígio exagerado, a velocidade também pode constituir uma fonte de problemas. Analisada com independência dos requisitos para jogar futebol, é como ter uma pistola à qual faltam munições: se não for acompanhada por precisão, a velocidade serve apenas para perder a bola antes do tempo; se não encontrar fundamentos claros para se expressar, aumenta os sinais de ansiedade e precipitação que levam à angústia fatal; como ninguém sobrevive em colectivos afectados pelo vírus da intranquilidade, a tendência desses factores nocivos é a sua multiplicação por cada um dos elementos da equipa. E, atingido o caos, é irrelevante saber se a viagem foi feita depressa ou devagar.

2. Transmite sensações vertiginosas pelo modo de agir e estar em campo; os argumentos que tranquilizam a inteligência e anulam o primeiro impacto da agitação chegam depois, quando estabiliza a relação com o jogo. Zé Manuel é explosivo por natureza mas sabe aproveitar o turbo que tem ligado às pernas; porque a bola não o torna mais lento, revela perícia na condução, arte com a qual consegue ser rápido mesmo em zonas congestionadas; como tem objectivos claros, não se perde em lengalengas e vai directo aos assuntos. Se parte da direita, procura a linha final para alimentar o golo com passes milimétricos; quando sai da esquerda, prefere a diagonal que lhe dá acesso à baliza, acumulando veneno enquanto procura espaço e momento para aplicar o tiro com o pé direito.

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3. Era apenas um extremo com poder de síntese revelado no Paços de Ferreira, mas o que tem feito no Boavista lança um desafio (pode chegar mais longe) e levanta questão pertinente (quantos jogadores na SuperLiga lhe ganham em eficácia e preponderância?). Sem a abrangência de Figo, a exuberância de Ronaldo, a magia de Quaresma ou a consistência de Sérgio Conceição, Zé Manuel adaptou características às necessidades da vida nas faixas laterais. Sem querer, tornou-se uma espécie de Simão Sabrosa dos pobres, hábil a entrar pelos flancos, com uma coordenação motora próxima da perfeição e talento para tomar decisões. Não menos importante, pega cada vez melhor na bola, parada ou em movimento, razão pela qual se tornou um temível rematador.

4. Neste Boavista que recuperou os pressupostos de grandeza que o tempo relativizou, Zé Manuel deu o passo que faltava, Cafú foi promovido a goleador de um ciclo e do nada saiu um guarda-redes para a Selecção B (Carlos). Orientado pelo sonho de quem nasceu modesto, Jaime Pacheco percebeu há muito que a felicidade exige trabalho, sacrifício e imaginação; sem recusar as origens humildes, cresceu e acumulou informação até se tornar um dos melhores comunicadores do futebol português; com os pés assentes no chão já viajou entre o céu e o inferno, entre a glória e o fracasso. Tirou agora o fim-de-semana para revisitar o paraíso: partiu na 6ª feira (3-0 ao Beira-Mar) e regressou na segunda à noite (o FC Porto venceu em Setúbal). Prova de que, sem forçar, continua a voar por lugares que outros jamais atingirão. Por mais que se ponham em bicos de pés.

Flanco direito

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SUBTIL MAS CONSISTENTE. O FC Porto tem sido uma equipa coesa (unida à volta de Costinha) mas excessivamente funcionária quando toma a iniciativa (Quaresma ou fica no banco ou é o primeiro a sair). Mas desta fase com pouca magia já resultaram aspectos positivos: a liderança isolada no campeonato (bom para eles) e a afirmação subtil mas consistente de Bosingwa (óptimo para o futebol português).

OBRA COM ASSINATURA DO TREINADOR. Jesualdo Ferreira recebeu uma equipa a cair aos bocados e, em menos de um ano, tinha construído uma potência da SuperLiga - escolheu os jogadores certos e fez a transição de um ciclo. De desconhecidos fez projectos interessantes; aos outros mostrou como podiam ser ainda melhores. O Sp. Braga está em 3º lugar no campeonato e ninguém se atreve sequer a pensar outra coisa: aquele quadro de qualidade é uma obra com assinatura do treinador.

TALVEZ ACEITE AS DESCULPAS... A urgência aumenta o ruído e os primeiros danos reflectem-se na memória colectiva. Como não fez golos à chegada, Pinilla semeou dúvidas; porque foi posto em causa perdeu confiança; alvo de todas as críticas deprimiu-se - Yazalde e Acosta passaram pelo mesmo. O golo ao Moreirense é o prenúncio de nova fase: cá para mim ainda vão andar com ele ao colo. Talvez ele aceite as desculpas...

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Não prolonguemos a ingenuidade

Que Seitaridis tenha deixado para trás a perna em que Ronaldo havia de acertar, levando Collina a assinalar "penalty" falso (estreia de Portugal no Euro'2004) é aceitável; que Wender, iniciando a queda antes de Rolando lhe tocar, tenha conduzido Jorge Sousa a ver infracção para castigo máximo (Belenenses-Sp. Braga) é explicável pela perfeição do movimento da queda. Sempre houve e haverá mestres na arte do engano. Grave é prolongar a ingenuidade na apreciação posterior e insistir no erro depois de analisar as imagens que os árbitros não puderam rever.

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