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A venda de Danilo e os cofres vazios

A venda de Danilo e os cofres vazios

Transferir Danilo por 31,5 milhões foi uma ótima transação para o FC Porto, até porque a imprensa espanhola acrescenta a possibilidade de os portistas poderem ainda receber mais 3,5 milhões em função de algumas variáveis. Mas o Real Madrid também garantiu para os próximos seis anos aquele que, estou em crer, rapidamente se irá afirmar como o melhor lateral-direito do futebol internacional. Os finlandeses costumam dizer que um bom negócio para dois é uma bofetada na orelha de um terceiro, neste caso principalmente na de um Barcelona que também se sabia andar à procura de um substituto de Daniel Alves.

Mas se a operação foi muito satisfatória tanto para portistas como para madridistas, já o momento em que ela ocorreu e foi imediatamente revelada ao mercado (como hoje impõem as regras da CMVM) parece algo inusitado e nada habitual num clube que sempre procura evitar qualquer potencial foco de desestabilização. O FC Porto está a três pontos do Benfica e, hoje mais do que ontem, envolvido na corrida ao título nacional, precisando ainda da concentração máxima na discussão, com o Bayern Munique, da passagem às meias-finais da Champions (isto dando já de barato que a Taça da Liga pouco poderá acrescentar no Museu do Dragão).

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Esta aparente cedência nas práticas que durante décadas foram relacionadas com boa parte do sucesso desportivo do FC Porto tem de ter ponderosos e inadiáveis pressupostos. Desde logo, provavelmente a necessidade imediata de resolver problemas de tesouraria. Caso contrário - é legítimo pensá-lo -, os responsáveis portistas teriam esperado pelo final do mês de maio para concretizar a transferência de um jogador que é titular absoluto e um dos capitães da equipa. Nesta altura, o FC Porto debate-se com duas situações que podem ter apressado o negócio. A primeira é o cumprimento das regras para o licenciamento das provas europeias, cujo prazo acaba de vencer. E, no final do presente mês, terá ainda de resolver um empréstimo obrigacionista de 30 milhões de euros. Em situações idênticas, a solução passou pela emissão de novo empréstimo, mas esse expediente vem ficando cada vez mais difícil de repetir com o beneplácito das entidades bancárias nacionais.

O Benfica já não o conseguiu fazer em dezembro, quando teve de resolver um empréstimo obrigacionista de 50 milhões de euros com mais endividamento junto do Novo Banco. Mas a precipitação da transferência de Danilo pode, provavelmente, ter justificações bem mais pueris e tão-só relacionadas com os cofres vazios, como de resto a insuspeita imprensa madrilena já vinha referindo nas últimas semanas. E não é difícil admiti-lo quando se olha para os mais recentes relatórios e contas da SAD do FC Porto. Quem esteve atento verificou que o orçamento para a presente época estabelecia a verba de 70,7 milhões de euros só para suprir remunerações (ou seja, sem prémios). Ora, na época anterior, esse valor não atingia os 50 milhões. Pior do que isso, o último relatório semestral já contabilizava gastos em remunerações bem superiores a 50 milhões de euros, isto quando só se ia a meio da época.

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O FC Porto conseguiu esta época formar um dos melhores plantéis da sua história, com uma quantidade de grandes talentos que não é habitual no futebol português. Mas os jogadores não saem do Real Madrid e do Barcelona, mesmo que nalguns casos apenas por empréstimo, para virem ganhar menos em Portugal. Ou seja, Pinto da Costa "meteu a cave" e fez uma aposta de risco elevado, principalmente porque a tendência atual é mais de "downsizing" do que de risco no investimento, sendo o Sporting o exemplo mais vivo dessa realidade que, mais cedo ou mais tarde, a todos acabará por tocar. Habitualmente, o FC Porto precisa de encaixar em transferências um valor na casa dos 40 milhões para equilibrar as contas. Olhando para o que está a pagar este ano, é bem provável que esta época precise de duplicar aquele valor. Ou lá perto. Vai ser interessante perceber como o conseguirá sem perder demasiada competência desportiva...

SELEÇÃO I

O jogo com a Sérvia deu sinais de que este novo caminho até pode fazer sentido

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A Fernando Santos, que é um excelente conhecedor tanto da mecânica do jogo como da gestão do balneário, têm de ser tributados dois tipos de méritos bem diferentes. O primeiro, que seria sempre o mais fácil, foi o efeito terapêutico que resultou da sua contratação e que ajudou à recuperação da autoestima da Seleção junto dos adeptos e não só. O segundo foi o ter percebido que as fases de apuramento não são concursos de beleza e que a atual Seleção, sem os predestinados de outros tempos, tem principalmente de ultrapassar as dificuldades com exercícios de maturidade e de competência defensiva.

Mais do que frente à Arménia, onde a primeira experiência com o recurso ao 4x4x2 clássico tinha deixado muitas dúvidas, o jogo com a Sérvia deu sinais de que este novo caminho até pode fazer sentido e que, em vez de usar um ponta-de-lança postiço, é preferível investir na mobilidade ofensiva e numa linha de quatro em que se exponencia a sapiência e a classe de Tiago e Moutinho. A solução parece um decalque da que, a certa altura Ancelotti usou em Madrid na época passada, com Fábio Coentrão a fazer o papel duplo que era então de Di María. Claro que há ainda muito por afinar, até por forma a deixar Ronaldo mais cómodo no seu jogo. Sem condições para alcançar algo parecido com a excelência e o esplendor na relva, a veterania desta Seleção pode dar a Portugal o equilíbrio e a madureza que tantas vezes lhe faltou quando tinha talento para dar e vender.

SELEÇÃO II

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Talento do Portugal B que perdeu com Cabo Verde deve ser aproveitado nos sub-21

O Portugal B (e até C) que perdeu com Cabo Verde tem mais a aproveitar do que o resultado indicia. Mas se Fernando Santos achar que ainda não é o tempo de Paulo Oliveira, Bernardo Silva, João Mário e André Gomes (e até eventualmente de William), o melhor será que a Rui Jorge seja permitido formar a melhor Seleção de sub-21 de há muitos anos para cá.

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