A vontade do jogador

IMPOSTOS O Ajax acabara de ganhar a terceira Taça dos Campeões (1972/73). Cruyff, então com 26 anos, reencontrava a rainha Juliana, orgulhosa de mais uma vitória internacional dos ilustres súbditos. Sua Majestade teve então para com a estrela maior palavras reveladoras de um carinho muito especial: "Johan, quando olho para o mapa dou comigo a pensar que és muito mais conhecido que eu. Ninguém no planeta sabe quem é a rainha da Holanda, mas todo o Mundo te conhece." Cruyff sorriu e replicou de imediato: "É natural, eu pago 80% de impostos."

BANCO SUÍÇO Quando admitiu a possibilidade de abandonar o Ajax, Cruyff sabia que tinha o Barcelona (de Rinus Michels) disposto a uma loucura para o contratar. Como não queria sair de casa mas entendia que era impossível ficar sob o espectro de ter uma opção melhor, quis resolver definitivamente o assunto pedindo uma fortuna aos catalães. Esperava ouvir a pergunta se estava bom da cabeça; responderam-lhe que no dia seguinte o dinheiro estaria num banco suíço. Por isso só faltava mesmo meter-se no avião, assinar o contrato e começar a trabalhar em Camp Nou.

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SACAS DE BATATAS Há muito que Rui Costa reclamava a saída da Fiorentina, clube para o qual o Benfica (Manuel Damásio) negociou o seu passe recusando proposta do Barcelona – o crime futebolístico da década. Em Florença ouviu sempre a mesma cantiga, que era inegociável, símbolo do clube e tesouro artístico da cidade. Ficou a troco de mais dinheiro, até que há dias recebeu telefonema impensável: os mesmos dirigentes cuja cabeça tantas vezes salvou, mandaram dizer que tinha sido vendido pela melhor proposta. Como se fosse uma saca de batatas.

IMPÉRIO Optara pelo Milan, porque lhe permitia abraçar projecto ganhador, porque ficava na Itália das suas paixões, porque tinha por fim um império a suportar-lhe as ambições. De repente estava a falar ao telefone com o presidente do Parma, que perante o facto consumado lhe oferecia uma fortuna. Não custa imaginar Tanzi a propor milhões e Rui Costa a pedir tempo; um a elevar a parada, outro a dizer que o problema não era dinheiro; um a chegar acima do milhão de contos por ano, o outro cada vez mais próximo de aceitar a inevitabilidade de ninguém neste Mundo o entender.

DEMOCRACIA Se o futebol é hoje menos democrático, a culpa é da inércia dos artistas, cada vez menos empenhados em utilizar a força proveniente do papel que desempenham no grande circo. Um processo iniciado no modo como permitiram escravizar-se pelos empresários e que se desenvolve perigosamente através da pouca firmeza com que reagem à falta de respeito e a algumas regras inqualificáveis instituídas pelos dirigentes dos seus próprios clubes. Rui Costa jogará no Milan. Menos mal que nesta época de tiranias a vontade do jogador, afinal, ainda sirva para alguma coisa.

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RUI DIAS

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