1 - Se é verdade que os grandes jogadores devem ser avaliados nas dificuldades, passou com distinção o primeiro grande teste europeu ao anular, com extraordinária limpeza, um dos melhores pontas-de-lança do Mundo. Com o Manchester United, Anderson desmantelou, uma a uma, todas as armas prodigiosas do adversário directo; face a um portentoso atacante, dono de brilhantes soluções técnicas, físicas e tácticas, respondeu com eficácia total, recusando o menor lampejo de perturbação e dúvida. No seu ar discreto, quase solene, foi perfeito a antecipar o passe, a controlar o movimento do receptor e a medir as intenções de uns e outros – venceu porque adivinhou mas também porque foi mais rápido, mais forte e mais inteligente. No ar confirmou tempo de salto, posicionamento irrepreensível e firmeza no ataque à bola.
2 - Os seus processos são tão cristalinos e as intenções são tão futebolísticas que passa jogos inteiros sem cometer uma única falta. Perante os adversários mais poderosos, assume a inevitabilidade do choque e não se intimida com a perspectiva de passar um jogo inteiro a bater, a saltar, a cair e a levantar-se; em relação aos que têm motores de Fórmula 1 nas pernas, encosta-se, não os deixa desenvolver e leva o duelo para o contacto físico; quando lhe surgem os mais imprevisíveis, mantém distâncias e utiliza a contenção para se defender melhor e estar mais apto a corrigir situações de perda. Quando é batido e a capacidade de reacção não é suficiente para rectificar a desvantagem momentânea, tocam as sirenes, sinal de que é inevitável cometer pequenas traições ao manual das boas maneiras que o orienta.
3 - Anderson sabe que o rigor do ofício defensivo não se compadece com lirismos, razão pela qual exerce muito metido consigo próprio, com a sua crença e o seu Deus – recusa atitudes extravagantes e dá personalidade aos gestos, assente num estilo prudente que chega a ser brilhante. A vigilância dissimulada mas implacável é apenas um elemento da autoridade exercida em voz baixa por quem, assumindo a marcação, não perde de vista as diagonais defensivas e a necessidade de multiplicar-se por tarefas imprescindíveis à segurança da casa. Ao fim de seis meses, está moldado aos elementos defensivos em vigor no futebol do Velho Continente: amplitude e diversificação de movimentos; acção constante; agitação ininterrupta e precisão nas saídas que iniciam a manobra ofensiva.
4 - A sólida afirmação de Anderson ao mais alto nível coincide ainda com a prova definitiva de Luisão como um dos melhores defesas do Brasil. Porque ambos são jogadores de selecção, o Benfica descobriu, finalmente, uma dupla de centrais ao mais alto nível europeu, retomando a história iniciada, no final dos anos 80, com Mozer e Ricardo Gomes. Se o tempo cumprir a obrigação de aperfeiçoar o entrosamento e cimentar cumplicidades em funções que se completam; se cada um evoluir como é previsível em futebolistas a meio caminho entre os 20 e os 30 anos; se o clube resistir às leis do mercado e optar por usufruir de dois pilares inquebráveis para ser competitivo a todos os níveis, o futebol português está na iminência de ver crescer uma dupla de referência para os próximos anos.
FLANCO DIREITO
Estrela da companhia
Não se deixou arrastar pela nostalgia dos que não festejam golos marcados à ex-equipa, mas também não se deixou vencer pela picardia que leva à provocação. Mesmo conhecendo o peso social do dérbi da terra natal, Bruno agiu como se o futebol fosse apenas um meio para sermos mais felizes. E nem o golo decisivo, no último segundo, na transformação de um canto directo, lhe alterou as convicções. Também há futebolistas assim.
A transgressão de Manu
Tem um nome alegre, exótico e fulminante. Em campo, Manu confirma a vertigem de um futebol rápido, amplo, perigoso, consistente e bem-disposto. Porque faz tudo a correr, consegue ser rápido nas situações mais insólitas, incluindo as de trânsito congestionado. Em Alvalade marcou o 4.º golo da época, num lance em que, depois de transgressão por excesso de velocidade, fugiu aos polícias e não quis conversas com o guarda-redes.
A expulsão miserável
Há árbitros revoltantes, implacáveis com as insignificâncias e tolerantes com as grosserias; gente que interpreta as leis do jogo como quem se orienta pela tabuada, mas só quando dá jeito para indignar o bom senso; há árbitros burocratas, insensíveis e demagogos, tanto que até chegam a parecer mal-intencionados. Pura ilusão de óptica: são apenas incompetentes. A minha solidariedade para com N’Doye, expulso miseravelmente no Penafiel-V. Guimarães da jornada 14.
TREINADORES E DECISÕES POLÉMICAS
Há um denominador comum entre os treinadores que tomaram decisões polémicas no fim da época passada: Luxemburgo (que aceitou promover a saída de Figo do Real Madrid), Peseiro (que deu a cara pela dispensa de Pedro Barbosa e Rui Jorge) e Carvalhal (que indicou a porta da rua a Wilson e Marco Paulo) não resistiram à voragem dos maus resultados e já foram destituídos dos cargos. Co Adriaanse levou até ao fim a ideia de que Jorge Costa não fazia parte dos seus planos. O capitão partiu para Liège. Veremos, daqui por 6 meses, onde estarão um e outro.