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Joseph Blatter, o suíço que lidera a FIFA, continua bastante crente em relação ao sucesso do Mundial da África do Sul. Aproveitando a passagem do dia -100 tendo em conta o arranque da competição, o dirigente máximo do organismo que tutela o desporto-rei atirou-se a quem, pelo contrário, duvida que tudo decorra conforme planeado. Eu, infelizmente, faço parte desse lote.
Era Artur Jorge treinador do Benfica, em 1995, quando fui à África do Sul (na altura, um país ainda a respirar o fim do "apartheid") cobrir o estágio de pré-temporada dos encarnados. Mesmo dando de barato que, 15 anos volvidos, muita coisa possa ter mudado para melhor, continuo a pensar que, se não fosse por meras questões de interesses políticos, jamais a organização de uma prova tão importante e complexa podia ser atribuída a uma nação como a África do Sul. A menos que quem decida nunca lá tenha estado, seja louco ou tenha uma fé enorme em que, desta ou daquela forma, tudo acabará por correr bem.
Entendo, perfeitamente, que os campeonatos mundiais (de qualquer modalidade) devem "rodar" pelos cinco continentes. No entanto, também sei que existem competições que, pelas mais diversas razões, não deviam entrar nesse esquema politicamente correcto da rotatividade. Como facilmente se deve compreender, Jogos Olímpicos e Mundial de futebol, não são provas "normais". Estamos a falar de eventos que, para além de terem uma duração relativamente prolongada e de contarem com muitos dos melhores desportistas do planeta, arrastam atrás de si milhares e milhares de adeptos/turistas. A complexidade da organização de competições deste calibre é tremenda e, por mais que se tente dizer que todos os países estão em condições de cumprir com os requisitos necessários... isso não é bem assim.
A África do Sul, mesmo sendo um oásis no continente africano em termos de infra-estruturas, é um país que não oferece segurança a quem o visita. Tenho a certeza que, às equipas participantes, nada acontecerá. A vigilância será tão apertada que, seguramente, ninguém com más (ou boas) intenções será capaz de se aproximar das comitivas. A questão é que, no que se refere aos adeptos, pura e simplesmente não acredito na eventual eficiência das autoridades. Se fosse assim tão fácil, de certeza que o índice de criminalidade não era tão assustador há tantos anos.
Quem lê jornais e vê televisão sabe bem o clima de instabilidade que se vive, por exemplo, na zona de Joanesburgo. Ainda não há muito tempo, por mera coincidência, assisti a um programa na SIC Notícias que mostrou bem a realidade de quem mora ... na zona abastada da cidade. Basicamente, habitam "prisões de luxo". Estar tranquilo, em traços gerais, passa por ter segurança privada, possuir todos os meios possíveis de vídeo-vigilância e até trancar o acesso aos quartos de dormir! Parece mentira... mas é verdade.
As recentes reportagens que os meus camaradas João Seixas e Pedro Ferreira realizaram em diversos locais da África do Sul reforçaram a minha ideia. Espero, com toda a sinceridade, estar errado, mas duvido que o país tenha capacidade para garantir a segurança de todos os que resolvam "descer" até uma região de imensa beleza natural mas que, praticamente em todas as esquinas, esconde situações potencialmente perigosas.
Não deve ser por acaso, nem apenas por causa da recessão económica que atinge todo o planeta, que a FIFA já mandou disponibilizar mais bilhetes aos adeptos locais a preços "de saldo". Consta que ainda existem 800 mil ingressos por vender, que os benefícios económicos esperados para o país não deverão ser atingidos e que o número de visitantes estimados inicialmente será bastante mais baixo. Ninguém gosta de viajar para um local que, pese todas as promessas, não inspira muita confiança. Era assim há 15 anos, é assim hoje. Infelizmente...