Está a acontecer com Dias da Cunha, pode suceder amanhã com Luís Filipe Vieira ou até com Pinto da Costa, se este se eternizar no poder e lhe saírem as vacas magras ao caminho. Os estados de graça não são eternos.
Os meus amigos sportinguistas gostaram de ver acabar a maldição dos 18 anos e de terem sido duas vezes campeões em três épocas. Deliraram com a concretização da Academia, em Alcochete, e adoraram a construção do novo Estádio José Alvalade. E, mesmo sem o confessarem, porque há coisas que a gente não quer nem lembrar, sentem orgulho em ter hoje uma direcção que não come com as mãos nem larga calinadas pela boca fora.
Esses meus amigos dizem-se agora preocupados com o défice leonino - como se tencionassem pagá-lo, tá quieto ò mau! - e fingem ter esquecido o tempo em que não havia sequer dinheiro para o papel higiénico. Bem, mas com a equipa já chegada à frente, a contestação a Dias da Cunha vai baixando de tom e se - por ironia do destino e porque a bola tem destas coisas - a sua equipa conseguir ir ganhar ao Dragão, o líder sportinguista ainda se arrisca a uma valente passeata em ombros. Garantido.
Simão
Pois já cá estava o Sokota e regressou o Nuno Gomes. E como ainda não havia pontas-de-lança que chegassem foram à Noruega buscar o Azar. Já nem sei quantos "reforços" viu Simão aparecerem-lhe na Luz desde que voltou da aventura catalã, mas foi uma boa carrada deles. Alguns tão bons que vieram e já deram à sola. Pois a verdade é que quando a coisa não ata nem desata lá tem de vir o Simãozinho resolver a questão, como agora aconteceu em Barcelos, cinco minutos depois da hora. Dir-me-ão que a bola bateu na barreira e que... Pois sim, meus meninos, foi uma sorte, mas para se ter sorte há que vergar a mola. E o Simão está sempre pronto, essa é que é essa.
Mr. Roca
A oposição a José Peseiro tinha tudo muito bem esquematizado e o homem estaria fora de Alvalade ainda antes da Consoada. O Tinga perdera a forma, o Rogério não era peixe nem carne, o Custódio estava na prateleira, os laterais não davam uma prà caixa, o Pinilla era o que se tem visto e até Liedson se mostrava demasiado franzino para carregar sozinho com a equipa às costas. Peseiro tinha o caixão pronto. Mas com o que as carpideiras não contavam era com um tal de Rochemback, que parecia lesionado para a vida. Fizeram mal. É que desde que o brasileiro voltou que os leões são outros, esfomeados e com as garras de novo de fora. Quatro vitórias consecutivas, que maravilha, menino Zezinho!
José Pedro
Terminar um jogo com 11 deve ser a esta hora o tema da preparação que Carlos Carvalhal está a dar ao plantel azul. É que se a expulsão de Juninho Petrolina no Dragão foi aquela barraca que se conhece, esta de José Pedro já ter um amarelo e andar por ali a distribuir lenha como se fosse tudo nosso já tem mais que se lhe diga. E a verdade é que o Belenenses até estava a jogar benzinho, ainda que Antchouet e Rodolfo Lima, sempre mais rápidos do que a própria sombra, tenham mais jeito para se pirar aos defesas do que propriamente para meterem a bolinha dentro da baliza adversária. Moral da história: à 8.ª jornada, a equipa de Belém já só está com 3 pontinhos acima da linha de água. Perigo...
Fernández no Paraíso
O homem pode não ser grande espingarda, mas irradia simplicidade e simpatia - o que não deve ser nada recomendável para sobreviver no reino do dragão, onde a moda é expelir vapor pelas narinas e vomitar chispas de fogo. Aliás, morto Totó Del Neri, sempre esperei que Pinto da Costa nos surpreendesse, à moda antiga. Admitia já não digo o regresso de Octávio - tanta surpresa também não! -, mas a "reabilitação" de Artur Jorge ou de Carlos Alberto Silva, sei lá, o perdão de Bobby Robson, uma nova oportunidade para Fernando Santos, o "desvio" do Bessa de Jaime Pacheco ou a aposta forte num treinador da nova vaga, como Carvalhal ou Couceiro - se PC já se tivesse esquecido de Quinito!
Nada disso, depois da encomenda italiana chegou Víctor Fernández, o antifalcão espanhol. Uma personalidade que se revela quando suporta, com uma paciência infinita, as estúpidas perguntas que os pés-de-microfone lhe fazem no final dos jogos. E também ao primar sempre pela correcção, dando a ideia ao adepto desesperado com o resultado negativo que vivemos no melhor dos mundos, com as criancinhas a brincar e os passarinhos a chilrear... Que Deus o abençoe, meu bom Víctor - olhe que isto não vai ser nada fácil.
Jorginho
Sabia bem o que fazia o ambicioso Carlos Carvalhal quando, no início da temporada, quis levar Jorginho para o Restelo. Mas o avançado brasileiro já estava no patamar de cima, voltado para voos mais ambiciosos. José Mourinho escreveu no Record que Benfica e Sporting não têm lá nenhum Jorginho, não sei se porque o moço já está contratado pelo Chelsea ou se apenas para gozar o prato. Ainda há dias, ouvi o presidente do V. Setúbal dizer que não tem em cima da mesa nenhuma proposta por Jorginho, mas estou convencido de que quando o Benfica e o Sporting se lembrarem de ir almoçar a Setúbal, já Jorginho está a dormir no Hotel Porto Palácio.
Aos 50 anos vai ser bem pior...
Há uma semana cometi, nesta página, um erro que há uns anos atrás me deixaria desesperado - troquei o nome ao treinador da Académica, que passou de João Carlos Pereira a... José Carlos Pereira. Já aqui na redacção, ponho algumas vezes o Pedro Barbosa como chefe da redacção de Record no Porto e transformo o meu camarada Jorge Barbosa em capitão sportinguista... Como já sou um veterano da guerra, sei que vou ter de viver com estes lapsos de memória e que, um dia em que chegue aos 50 anos, a coisa há-de ser ainda pior.
Mas quando soube, há dias, que no "Diário de Notícias" o Luís Delgado chamou a José Manuel Barroso, director interino do jornal, José Manuel Fernandes (director do "Público"), fiquei mais descansado. Ainda não deve ser da idade!