Ainda à espera da inspiração

1. Para Francisco Maturana, consagrado treinador colombiano, "o futebol é uma combinação de organização colectiva e de exaltação da capacidade individual". O "Sacchi dos trópicos", como lhe chamou um dia Jorge Valdano, é perfeito no resumo simples de um jogo tão complexo e é generoso ao indicar o curto caminho que nos separa da felicidade: quando esses princípios se conjugam em grandes equipas, é possível aspirar à plenitude dos sentimentos que o futebol gera como fenómeno social e expressão de arte. Mas a regra em vigor tem sido inflexível com o talento dos artistas, inibidora da sua liberdade criativa, desconfiada do seu instinto, desmobilizadora do prazer de jogar. Tudo em nome de valores globais repressivos como ordem, táctica, disciplina e obediência cega à vontade de quem manda.

2. Em Itália, as figuras maiores são infelizes ou porque jogam como não gostam ou porque, pura e simplesmente, não jogam. No Milan de Ancelotti, por exemplo, é de todo improvável que Rui Costa, Rivaldo, Seedorf e Pirlo, apesar de campeões europeus, se sintam realizados naquela fábrica de trabalhadores especializados, da qual Gattuso é o símbolo maior. Em causa está o comprometimento dos jogadores com a ideia do treinador, com a assimilação de um modelo e a aceitação de um estilo. O FC Porto confirmou em Belgrado que continua à espera da fantasia dos seus craques mas interpretou bem as dificuldades, aceitou as regras de uma noite de risco e não sofreu perante a exigência de formar um exército unido, corajoso e disponível.

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3. Deco não se diminui pelo facto de passar hora e meia vestindo a pele de um vulgar atleta com sentido táctico; de lutador com presença constante nos despiques individuais; de peão obediente, escrupuloso cumpridor de ordens às quais se sente vinculado não por mero profissionalismo mas por convicção. O resto da diferença é ainda mais simples de entender: ele sabe, como os seus companheiros e o próprio José Mourinho, que a ausência de inspiração é um dado transitório. Deco é, assim, a prova de que só a cumplicidade individual de cada jogador com o meio em que está inserido o deixa livre para tomar a melhor escolha em cada instante do jogo. Se a norma é seguir o instinto e tirar coelhos da cartola, agora está obrigado a saber de cor o guião aprendido durante a semana.

4. Em tempo de crise, o Real Madrid é uma espécie de ironia no meio da solene preocupação. Enquanto a regra, um pouco por todo o lado, é vender os melhores para poder pagar aos outros, o grande colosso do futebol europeu compra quem lhe apetece, suportado no raciocínio segundo o qual rendimento desportivo, "marketing" e publicidade são irmãos cada vez mais condenados a darem-se bem. Para uma equipa que tem Figo, Zidane, Raúl, Ronaldo, Beckham, Roberto Carlos e Casillas, não existem problemas de exaltação individual. O problema do Real, a existir, é o oposto da maioria e prende-se com a "organização colectiva", para manter conexão com a frase inicial de Francisco Maturana. Pelo sim, pelo não, contrataram Carlos Queiroz. Fizeram eles muito bem.

Passe curto

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UMA VIDA CHEIA DE RISCOS - Ao minuto 90 o Benfica vencia por 3-1. Na RTP, o comentário final apontava no sentido de que estava bem; surgiu então o 3-2 e... estava melhor; veio o 3-3 e ninguém se entendeu. Quem disse que era mau trabalhar em jornais?

ESSA COISA DOS ACTIVOS - No funeral de um dos melhores guarda-redes mundiais de sempre, Ribeiro Teles considerou Vítor Damas um activo do Sporting. A linguagem empresarial instalou- -se no futebol. Nada a fazer. Permitam só um desabafo: não gosto.

MÃOS QUE VÊM POR BEM - Roger meteu mão à bola e a Lazio fez o 3º golo - saiu da equipa e esteve quase, quase a sair do clube. Hélder Postiga seguiu-lhe o exemplo e utilizou indevidamente a mão pela Selecção de Esperanças. A diferença é que fez golo. O mesmo gesto pode criar réus e heróis. Afinal, há mãos que vêm por bem.

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PRAGMATISMOS - Camacho seguiu a lógica do pragmatismo, esse flagelo às vezes premiado com vitórias. A ganhar, tirou avançados, meteu médios e defesas; no fim, pediu aos seus homens para jogarem a não jogar; o Belenenses marcou dois golos e empatou. Um facto que serviu para mostrar que nem todas as grosserias são vencedoras.

Uma esperança para Ryan Giggs

Ryan Giggs tem algumas afinidades com George Best: ambos extremos, com história feita no Manchester United e oriundos de países com pouca expressão internacional. Se um teve a infelicidade de defender as cores da modesta Irlanda do Norte, o outro tem carregado a cruz de ser galês. Mas Giggs tem ainda uma esperança de presença num dos mais apetecidos palcos do futebol: o País de Gales está na corrida pela presença no Euro-2004. Era giro que viessem.

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