NÃO sei se o termo exacto é borracheira ou bambochata. O que sei é que nem sequer consegui sorrir, quanto mais rir ou soltar uma só gargalhada que fosse. “O Lampião da Estrela” deve ter sido uma das comédias mais chatas que já vi em toda a minha vida de cinéfilo militante. E não vi poucas, desde as americanas às italianas, passando pelas portuguesas em que pontificavam o António Silva e o Vasco Santana. Comparar o chatíssimo e desconcha-vado “Lampião da Estrela” com o divertidíssimo e desopilante “Leão da Estrela” - mesmo sabendo que o objectivo não era fazer um “remake” - seria como comparar um “frango”, de um guarda-redes qualquer, com qualquer dos grandes golos obtidos pelo Eusébio!
A gigantesca promoção que a SIC fez, com a ajuda do próprio Herman José, se não prometia uma obra-prima, deixava adivinhar, pelo menos, uma divertida e desopilante comédia sobre os maus costumes do nosso futebol. Expectativa completamente frustrada. Porque uma comédia só tem sentido quando estabelece um elo com a realidade que está a ser caricaturada e que os espectadores conseguem imediatamente identificar. Ora, o telefilme da SIC não tem a ver com coisíssima nenhuma - e muito menos com a realidade do futebol, em geral, e do futebol português, em especial. Bem tentei apanhar o “fio da meada”, mas depressa percebi que aquilo não tem “fio” nem “meada”. É uma sucessão de “sketches” disparatados, desengraçados e sem golpe de asa (ai, a águia!), em que um Herman já visto e revisto (“déjà vu”), no seu pior, passeia a sua decadência, arrastando atrás de si alguns artistas de inegável talento. Mas talvez tenha realizado uma ambição: ter mais “share” do que o Baião!
Bem sei que “O Lampião da Estrela” arrebatou audiências: foi visto por quase dois milhões de telespectadores. Mas, hoje, como costumo dizer, já nada me espanta. Quantidade raramente é sinónimo de qualidade. E não me surpreenderia nada que muita gente, acicatada pela promoção da SIC, estivesse à espera que Catarina Furtado pusesse as maminhas ao léu. Sinceramente, teria ficado muito desiludido se ela as tivesse mostrado neste tão medíocre telefilme. Porque, se há coisa que ficou bem patente no meio de tanto desconchavo, é que Catarina Furtado, além de ser muito bonita (o que já se sabia), é uma actriz com imenso talento e chegará certamente bem longe (tanto na televisão como no cinema e no teatro) se lhe proporcionarem muitas e boas oportunidades. Basta ver como, agarrada a um papel sem espessura nem consistência, ela se meteu em brios, deu a volta ao paupérrimo texto e conseguiu compor a personagem que lhe coube em sorte. Foi também o que fez São José Lapa - e de que maneira! E se ambas são benfiquistas, o Benfica bem pode orgulhar-se delas!
Eu diria que “O Lampião da Estrela”, além de ser uma patetice sem graça, passou ao lado de uma grande oportunidade para caricaturar alguns “cromos” de alto coturno, que andam a “laurear a pevide” nos bastidores do pontapé-na-bola e a chatear-nos a paciência nos estúdios de televisão. Diria mesmo que algumas das piores sessões do famigerado programa “Os Donos da Bola” me divertiram mais do que este telefilme tão desenxabido. O indecoroso “caso da menina Paula”, os debates televisivos “de faca e alguidar” entre alguns “paineleiros”, os comentários pindéricos da inefável Cinha Jardim ou os discursos delirantes do hilariante doutor Vale e Azevedo, dariam pano para mangas. Mas, aí, esse Grande Educador da TQT (Televisão Que Temos) que é o doutor Emídio Rangel era capaz de afinar. É criatura que não revela grande sentido de humor, nem parece capaz de rir de si próprio!
É verdade que, em matéria de televisão, a SIC bate a concorrência com uma perna às costas. Mas também é verdade que a concorrência tem algumas coisas boas. E uma delas é, certamente, o “Bar da Liga”, espécie de “Contra-Informação” adaptada ao futebol lusitano. “O Lampião da Estrela” bem podia lá ter ido beber alguma inspiração. Em vez disso, confiante na boa estrela do “Lampião de Carnaxide”, até parece que foi ao “Bar da Liga” beber outras coisas e acabou por ser atropelado na Estrada da Outurela. Paz à sua alma!