NESTA altura do Euro-2000, o futebol-força já perdeu. Felizmente, é a força do futebol bem jogado que está a ganhar. Confesso, desde já, que não gosto daquilo a que agora alguns chamam “futebol vertical”. Se bem entendo o que esta expressão significa, é esse o futebol preferido, regra geral, pelas equipas constituídas por “pernas-de-pau” altos, fortes, loiros e espadaúdos, invariavelmente convencidos de que a melhor maneira de chegarem ao golo é caminharem em linha recta para as balizas dos adversários. É uma espécie de futebol praticado por “funcionários” atléticos e disciplinados, que não primam por tratar lá muito bem a bola e que optam, as mais das vezes, pelo “sprint”, o confronto físico e o salto em altura, com a pobre da “redondinha” sempre a voar, em vez de andar na relva a rolar.
Claro que há excepções à regra. Há quem diga, por exemplo, que a actual selecção da Itália também joga um “futebol vertical”, só que praticado por jogadores de grande qualidade técnica. É indiscutível que os jogadores italianos são uns artistas, mas a verdade é que o seu estilo de jogo, apesar de terrivelmente eficaz, chega a ser “chato como a potassa”. E nem será por acaso que o maior artista de todos eles, Alessandro Del Piero, não tem conseguido ser titular. Ao contrário do que tem sucedido com os maiores artistas das outras três selecções semifinalistas - Luís Figo (Portugal), Zinedine Zidane (França) e Denis Bergkamp (Holanda) -, que são titularíssimos, mesmo quando ficam de fora só para descansar.
Apesar da minha “costela” italiana (nasci em Roma e sou filho de uma italiana), ficaria muito desapontado se esta selecção da Itália conseguisse vencer o Euro-2000. Caso a selecção de Portugal não consiga ser campeã da Europa, prefiro que seja a da Holanda ou a da França a conseguí-lo. Se o futebol praticado por esta “squadra azzurra” saísse vencedor, constituiria um péssimo exemplo para todas as equipas de futebol, por esse mundo fora. Seria uma espécie de retrocesso aos tempos do “cattenaccio”, táctica hiperdefensiva celebrizada em Itália pelo técnico sul-americano Helénio Herrera, mas já anteriormente popularizada pelo técnico austríaco Karl Rappan sob a designação francesa “verrou” e mais conhecida em Portugal como “táctica do ferrolho”. Em suma: todos cá atrás, a jogar na “retranca”.
Se o melhor exemplo é o desta selecção da Itália, o chamado “futebol vertical” tem muito que se lhe diga. Porque assenta, basicamente, num preconceito que em nada beneficia o espectáculo. Trata-se de estabelecer duas linhas defensivas paralelas - dois muros de jogadores atrás da linha da bola, em defesa da baliza deles - e esperar por oportunidades de con-tra-ataque, nem que elas só apareçam “quando o rei faz anos”. Quando os executantes são muito bons (caso dos italianos), conseguem marcar um ou dois golos em cinco ou seis contra-ataques e o resto do tempo passam-no cá atrás, a destruir o jogo do adversário. Essas jogadas de contra-ataque não são rigorosamente “verticais”, mas são “quase”, porque os defesas adversários, apanhados em contrapé, não recuperam ou ficam-se “nas covas”.
Este é um futebol “científico” e “mecânico”, inventado por treinadores com vocação para “teóricos” e “catedráticos” da bola. Também julgam que são “generais” e preferem, por isso mesmo, “comandar” as equipas como se estas fossem pequenos exércitos e os jogadores simples soldados de infantaria, cavalaria ou artilharia. Custa-lhes a entender que o futebol é uma “arte criativa” e não uma “ciência exacta”. Não querem admitir que o futebol depende mais da habilidade, do talento e do génio dos jogadores, do que das “teorias” e “esquemas tácticos” congeminados em resmas de papel. Não percebem que é preciso adaptar as tácticas às características dos jogadores disponíveis - e não os jogadores às tácticas de treinadores teimosos, vaidosos e convencidos, que estão, regra geral, cheios de medo.
Estou farto de ouvir falar de “futebol vertical”. Mas, se o problema é de geometria, então prefiro um futebol ortorrômbico, poliédrico, multifacetado, parabólico, cheio de ângulos, triângulos, quadrângulos, losangos mais ou menos rombos, curvas e arcos abatidos, com muitas tangentes, secantes e diagonais. Regra geral, num bom jogo de futebol, a melhor maneira (e mais rápida) de chegar ao golo não é “marrar” a direito, na “vertical”, mas sim fazer “carrosséis”, enlear os adversários, multiplicar habilidades para lhes trocar os olhos, até eles serem apanhados desprevenidos. E, então, sim: “toma lá que já almoçaste”! Foi isso que fez Portugal, nos jogos contra a Inglaterra, a Alemanha e a Turquia. Foi isso que fez a Holanda, no jogo contra a Jugoslávia, desta vez muito justamente “bombardeada”. Ganhou o espectáculo. E é por isso que digo, contra o “futebol vertical”: viva o futebol ortorrômbico!