Para acentuar a diferença entre génios e cidadãos comuns, Jorge Valdano costuma utilizar a imagem do cimento que sustenta o mosaico bizantino para concluir que, sendo ambos importantes, não têm propriamente o mesmo valor. A mesma distinção faz César Luis Menotti, recorrendo a imagem distinta. Disse um dos mais extraordinários geradores de ideias que o futebol conheceu que, para Mozart criar as maravilhas que a humanidade assumiu como património mundial, eram precisos homens fortes para lhe levar o piano a casa. A metáfora serve para o mesmo efeito: uma coisa é a força do músculo e o empreendedorismo de gente vulgar, outra é o génio de um ser excecional. Servem estes argumentos para enquadrar futebolistas cuja principal característica é a conjugação de uma coisa e outra. André André é o mais recente exemplo em Portugal ao mais alto nível de um jogador que conjuga a arte de carregar o piano e de tocá-lo com brilhantismo.
Nessa perspetiva, AA é sempre muito mais do que parece, porque o seu talento abrangente, delicado e universal nem sempre é instantâneo. Quando o vemos entregar-se à luta como operário qualificado e disponível, é capaz de arrebatar a plateia com um poema emocionante que nos reconcilia com o futebol; se nos habituamos a vê-lo como artista pronto a deliciar-nos com a exaltação de argumentos técnicos superiores, somos surpreendidos com a solidariedade no trabalho mais sujo, sempre necessário para a segurança e o equilíbrio estrutural do exército que defende. Há nele a conjugação rara de quem sua as estopinhas e dá o corpo ao manifesto para roubar a bola e é capaz de, automaticamente, participar em ações de aproximação à baliza. Prova de que é três jogadores num só, ainda revela precisão tremenda na relação com os guarda-redes, razão pela qual é um perigo se chega em condições de aplicar o último toque.
AA assenta no perfeito entendimento do futebol como desporto coletivo; conhece todos os segredos de um jogo que, propício à exaltação individual e à criação de heróis para toda a vida (CR7 e Messi são apenas os exemplos mais eloquentes), só atinge a expressão máxima quando ascende a uma dimensão mais ampla; quando cada um dos elementos da equipa sustenta a relação entre si com a cumplicidade de quem vive o jogo por inteiro e entende o balneário como sala de aula, dormitório ou quartel. No fundo, quando é possível alicerçar a expressão sublime dos craques numa base de entendimento mútuo para resolver problemas em conjunto. Um jogador como AA, com estas características e qualidades tão vastas e diversificadas, se tivesse aparecido no início dos anos 70 seria perfeito para o futebol total que encantou o Mundo e do qual o Ajax e a seleção da Holanda foram expoentes máximos.
Aos 26 anos, AA ainda vai a tempo de cumprir o destino de ser referência absoluta no clube do coração (FC Porto), na Seleção Nacional e no futebol português. Para lá dos argumentos físicos, da paixão, da inteligência tática e do talento natural com que melhora os companheiros e multiplica o rendimento coletivo, tem ainda armas suplementares de liderança. Pelo exemplo, mas também pela orientação que imprime, aglutina a equipa, contagia o exército e propaga o espírito guerreiro da nação que representa, dentro e fora do campo; antes, durante e depois da ação. Nele habitam ainda os genes competitivos de um dos mais extraordinários médios portugueses de sempre, pai André que, antes de perder a luta contra o tempo, ombreou com os melhores médios da Europa do seu tempo. Apesar da extraordinária proeza de Rúben Neves frente ao Belenenses, comandante das tropas aos 18 anos, durante 45 minutos, AA tem tudo para ser, mais cedo ou mais tarde, imagem de marca e até capitão do FC Porto.
William Carvalho melhora Sporting
Os grandes jogadores são sempre notados: na presença e na ausência.
William regressou e o Sporting fez a exibição mais conseguida da época, aquela em que melhor conciliou estética (bela exibição), atitude (voracidade na construção da goleada) e eficácia (5 golos apontados - e podiam ter sido mais...). O regresso do médio foi auspicioso e, aos 23 anos, depois de paragem prolongada, confirmou a ideia de que o Sporting é muito mais forte com ele. E a Seleção Nacional também.
Este belo Rio Ave de Pedro Martins
Em Vila do Conde está a consolidar-se uma equipa orientada pelo bom gosto.
Quando se juntam estabilidade institucional, empolgamento popular, bons jogadores e treinador competente não são precisos milagres para atingir o sucesso. No Rio Ave, Pedro Martins confirma a cada semana tratar-se de um treinador para o futuro do futebol português. Pelos resultados mas sobretudo pelo estilo de quem valoriza a bola e o atrevimento, torce o nariz à expectativa e rejeita a especulação.
Génio de Gaitán encantou Madrid
O que fez no Vicente Calderón só está ao alcance dos grandes craques.
Gaitán é dos melhores estrangeiros que passou pelos relvados nacionais. É difícil entender as razões pelas quais os pretendentes recusam concretizar o namoro em casamento. Talvez não acreditem no que lhes dizem e sejam preconceituosos com a Liga portuguesa. Esperemos que tenham visto a exibição em Madrid, grande palco onde explodiu para demonstrar que, afinal, não é uma estrela de trazer por casa.