O Benfica perdeu a final. Mas ganhou a época. Se tivesse ganho ontem, 2014 ficaria para sempre um ano maior na história do Benfica. Daqueles anos que acontecem um em cada trinta. Como o 1987 do Porto. Como o 1966 da Seleção Nacional. Como o 1962 do Benfica.
Quem não é benfiquista reconhecerá o mérito. Quem é benfiquista, como aqui escrevia ontem José António Saraiva, viveu um sonho. Parecia impossível. Depois da época passada, parecia impossível. Mas precisamente por causa do desastre da época passada, em que tudo podia ser ganho e tudo foi, à última, perdido, esta época é apesar de tudo notável. Não é um ajuste de contas com o destino porque não era um conflito com ele. Mas é fazer as pazes com o destino.
O Benfica não ganhou o que ganhou por causa da sorte (que também teve), beneficiando de azares de outros (também beneficiou) ou com jogadas de secretaria. O Benfica ganhou o campeonato porque tem uma grande equipa. Uma grande equipa não é uma soma de grandes jogadores, é muito mais do que isso. Uma defesa quase perfeita. O meio-campo veloz e criativo. O ataque eficaz. O todo é mais do que a soma das partes. Não há um Eusébio, há uma equipa. É impossível mantê-la no futuro como está; jogadores como Garay, Gaitán, Rodrigo e mesmo Enzo Pérez estarão nas listas de compras de muitos clubes, mesmo que não estejam nas listas de vendas do Benfica. Mas essa equipa existe hoje e, embora falte ainda a prova final da Taça de Portugal no próximo fim de semana, o que já conseguiu este ano é justo.
Dois nomes estão acima de todos os outros. Luís Filipe Vieira, o presidente que trouxe o Benfica da rutura às vitórias e liderou um projeto desportivo e empresarial de risco mas com resultados. E Jorge Jesus, que construiu esta equipa num projeto, como ele próprio diz, de cinco anos. É um homem cheio de defeitos mas este ano perdeu um: a arrogância. Perder defeitos é uma qualidade.
A arrogância perdeu-a provavelmente no minuto 93 do jogo do ano passado no Dragão, quando Kelvin lhe tirou o campeonato e o deu a Vítor Pereira. Nessa noite, Jesus caiu de joelhos, prostrando-se à nação portista inteira. Esteve para ser o seu fim. Hoje, tem toda a nação benfiquista a seus pés. De joelhos. Não por submissão. Por gratidão. Em vénia.