1 Nestes tempos em que perder é um drama e a urgência de resultados atribui à eficácia o valor excessivo das coisas sagradas, o futebol procura espaço de reflexão para debater conceitos e autorizar a dúvida como factor de progresso. Na luta que reprime desalinhados e estabelece hierarquias servindo-se apenas de números, os treinadores continuam pressionados pelos extremos da mediocridade salvadora e da grandeza de convicções que termina habitualmente no desemprego; são funcionários com missões a cumprir ou quadros especializados com ideias para acrescentar; gente que se contenta em gerir rebanhos ou aceita o desafio de construir equipas de verdade; prisioneiros do milagre do pontinho ou corajosos que procuram associar o nome a projectos em que acreditam. Em entrevista recente, Jorge Valdano fornecia mais um dado para a discussão: “O êxito faz-nos mais imbecis, razão pela qual tenho um certo apreço por isso a que chamam fracasso.”
2 Em causa está a velha e aleatória divisão entre bons porque vencem e maus porque perdem. Aos olhos do bom senso, os treinadores dividem-se entre os que treinam e os que ensinam, entre os que se reduzem à condição de profissionais (podem até ser os melhores) e os verdadeiros mestres, que têm a perfeição como limite e assumem todos os riscos em nome de um objectivo: melhorar os seus jogadores em todos os capítulos, estimulando o pensamento e incutindo-lhes o prazer da descoberta. Quando encontram alunos talentosos, com fome de saber, capazes de assumir a sua parte no processo de crescimento, estão reunidas as condições para se operarem os milagres com que o futebol teima em surpreender-nos. De Heynckes a Camacho, passando por Mourinho, Toni e Jesualdo, todos agiram como se Miguel fosse um diamante perdido no fundo de um baú desarrumado. Valeu a pena esperar: estão agora à vista os fundamentos da aposta nem sempre compreendida.
3 Tem o perfil do jovem para quem a revolta faz mais sentido que a obediência; alguém que aceita os sacrifícios por ter ainda bem presentes as sequelas do sofrimento; é um jogador de fácil inserção no colectivo, não para se diluir no grupo e perder identidade, mas para reclamar um papel na comunidade em que está inserido e contribuir para o seu bem-estar. Miguel nasceu com a motivação incorporada, porque a infância não lhe deu alternativa senão lutar pela sobrevivência; o espírito de competição com o exterior e consigo próprio está definido no código genético e traduz-se num orgulho que transporta a força da vingança. Nunca duvidou do talento que na adolescência lhe deu a aura de prodígio, resistindo sem dor ao apupo, à desconfiança, à falta de carinho, à ideia de mal-amado que extravasava das bancadas da Luz. Sobretudo porque o futebol continuava a ser, e ele soube-o desde a primeira hora, a estrada mais bela e segura para a felicidade.
4 Miguel utiliza as linhas para manter sentido de orientação, razão pela qual actua à direita e à esquerda; por intimidade com a bola, drible consistente, critério no passe e velocidade alucinante desequilibra à frente; por ser forte nos duelos individuais, solidário, concentrado e inteligente na ocupação do espaço já é um dos melhores laterais-direitos portugueses dos últimos anos. Miguel é um refractário assumido à banalização e ao comodismo, da mesma forma que a timidez e o desânimo são apenas estados de espírito transitórios; porque olha para trás e sente que vale a pena ter memória, consegue dar sentido ao futuro e alimentar o sonho. Frente à Académica, resumiu num lance a aventura que tem sido a sua carreira: recusou-se a chutar para a frente e solicitou Geovanni; não ficou à espera da sorte e lançou-se na correria que o levou de uma área à outra; quando se reencontrou com a bola, muitos metros à frente, tinha toda a gente nas suas costas menos o guarda-redes adversário; não se vitimizou pelo cansaço, nem perdeu tempo com raciocínios complexos: marcou golo. Sem darmos por isso, é o que tem feito desde que nasceu.