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As conversas sem palavras

GRITO MÁGICO - Houve um grito que todo o Mundo ouviu naquele momento mágico da electrocussão de Rui Costa com a Taça de Itália em pleno relvado do Artemio Franchi. Um grito que podia ser de revolta pelo destino cruel que o conduziu a um lugar onde nunca terá os títulos correspondentes ao talento que possui; de orgulho pela demonstração de força traduzida numa grande vitória ao serviço da Fiorentina; de paixão pela cidade e pelo clube que o transformaram em príncipe perfeito e intocável.

PAIXÃO - O objectivo era detectar através de um simples gesto na grande festa qualquer sinal que desvendasse o que vai na cabeça de um dos mais extraordinários jogadores do nosso tempo, paixão de resto já assumida por quase todos os grandes clubes italianos (Milan, Lazio, Roma, Inter). E isso porque ninguém atribui às palavras de Rui Costa sobre o futuro o seu real valor. Continuar em Florença não deve ser desejo mas resignação ao que não passa apenas pela sua vontade; não será ingenuidade mas uma forma de pressionar quem lhe promete um futuro melhor.

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DESERTO E PARAÍSO - Rui Costa sabe que a ideia de o ver num clube campeão entusiasma os seus admiradores. Mas respeitemos o perfil de homem sensível e não subestimemos a sua inteligência. Cá por mim pode ficar na Fiorentina a vida inteira e ganhar uma Taça de Itália de cinco em cinco anos que nunca será diminuído no essencial: a sua qualidade como jogador. Mesmo que o conselho a dar-lhe hoje seja perguntar já a Batistuta, até esta época parceiro na caminhada pelo deserto, qual a sensação de chegar ao paraíso, encontrado meses depois de o deixar sozinho.

PRIMEIRO O DUCHE - Por falar em diálogos imaginários, há códigos de relacionamento entre futebolistas e treinadores que também não passam por palavras. Quando o jogador substituído vai a correr para o duche, cego de revolta e indiferente ao que vai passar-se depois, ou seja, quando o sentimento de humilhação pessoal se sobrepõe à expectativa do bem-estar colectivo, não são precisas conversas. O mesmo sucede quando o treinador manda para o campo um jogador em dificuldade e lhe coloca sobre os ombros uma responsabilidade excessiva.

AZAR - Mancini lançou Nuno Gomes frente ao Parma. Pois se faltava um golo, se o português é goleador e o jogo estava perdido, que entrasse e resolvesse. O técnico fez uma aposta para inverter o rumo de história que não ia acabar bem, mas dela resultou um final desgraçado: não é que o herói da noite foi o vilão que as cabeças pensantes do clube desejam ver pelas costas? E nem custa imaginar que, passada a euforia, todos se reuniram na sala ao lado para comungar o mesmo sentimento. Convenhamos que é preciso azar: com onze jogadores em campo havia logo de ser aquele a dar a Taça à Fiorentina.

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