As convicções de um treinador

1. Se as equipas funcionam a partir de uma lógica de cadeia, com origem na cumplicidade das peças mais próximas entre si, o caminho para a perfeição global começa no escrupuloso respeito dos pormenores. É esse entendimento sectorial que conduz às desejadas rotinas de jogo; é a repetição de gestos e movimentos combinados que leva, fatalmente, à harmonia geradora de acções cada vez mais amplas e participadas. Quando as regras estão definidas, a ideia geral é aceite e a equipa se conhece (nas raízes e nos objectivos; nas dificuldades e no empolgamento), então as mudanças estratégicas detectadas por quem está de fora tornam-se quase imperceptíveis para quem as vive por dentro. Esse patamar de articulação conjunta é o sonho de qualquer treinador.

2. Trapattoni foi inteligente na avaliação do plantel e cirúrgico no toque pessoal que deu à estrutura já existente. Aplicou princípios de entendimento do jogo mas manteve os pressupostos do 4x3x3, admitindo apenas a hipótese de actuar com dois avançados, desde que um deles fosse Nuno Gomes - só ele tem argumentos para encurtar distâncias e estabelecer a ponte entre a equipa e o golo. Em cima da mesa estava a opção pelo 4x4x2 em losango, através do qual garantiria maior equilíbrio no meio campo, em prejuízo da eficácia ofensiva nas faixas laterais. O problema é que o mais extraordinário jogador encarnado, o craque de inspiração permanente e alma criativa da equipa, é um extremo com dimensão europeia: Simão Sabrosa.

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3. Na Madeira, Trap valorizou o sentido de justiça (boa prestação com o V. Setúbal) e foi sensível ao ruído exterior que reclamava uma oportunidade para a dupla Sokota/Karadas. Pela convicção já tornada pública de que os pontos de contacto entre ambos são excessivos, o que os torna demasiado parecidos para que possam completar-se, o treinador italiano votou vencido, prova de que as circunstâncias também interferem nas decisões de um homem. Utilizando o 4x4x2 tradicional, o Benfica viveu o desespero de ter duas ilhas desertas entre a defesa contrária e ainda obrigou Simão a desgastar-se num raio de acção de 50 metros, quando o efeito devastador do seu futebol se exerce muito mais próximo da baliza - ele é mais um extremo genial do que um médio de corredor.

4. O Benfica não deu continuidade ao jogo ofensivo e fiabilidade às acções que estimulam a segurança colectiva, recorrendo a um estilo directo que esvaziou o peso da intermediária. O Marítimo criou os anticorpos para desmascarar os desequilíbrios alheios: pôs a bola no chão, mostrou que tinha uma ideia e imprimiu-lhe dinâmica. O jogo transformou-se num io-iô vertiginoso, que descia ao ritmo incerto de um pontapé para a frente (à procura de Sokota e Karadas) e subia à cadência alucinante dos envolvimentos de Manduca, Leo Lima, Alan e Pena. Ao decidir contra as suas convicções, Trapattoni terá pensado que não tinha toda a razão e acreditou que estava muito perto de concretizar o tal sonho de que vos falei. O equívoco foi total: não só tinha razão como o sonho quase virava pesadelo.

As palavras de José Peseiro

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No final da goleada sobre o Boavista, José Peseiro fez como Luiz Felipe Scolari a seguir ao jogo com a Rússia: agarrou-se à vitória e libertou a tensão acumulada. Foi educado e apenas contrapôs uma opinião às opiniões de quem o analisa a ele e ao seu trabalho. César Luís Menotti concentrou numa frase a linha de raciocínio que orienta quase todos os treinadores: "Os meus críticos não podiam sentar-se dez minutos comigo a falar sobre futebol. Passariam uma grande vergonha. Desafiá-los-ia na teoria e na prática. Tenho a certeza de que iria divertir-me imenso."

A eterna capacidade de renovação

No jogo de Sub-21 com a Rússia, no Bonfim, a entrada do jovem Varela, à beira do fim, foi um vendaval de ambição e irreverência que contagiou bancadas e equipa.

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Um mês depois, já como titular, marcou um golo no Luxemburgo aos 57 segundos. Varela, avançado que o Sporting tem emprestado ao Casa Pia, é a prova da eterna capacidade que o futebol tem para se renovar.

Estado de alerta permanente

Leo Lima é um artista que sabe tudo sobre a relação com a bola e o papel do maestro numa orquestra - ele, Jorginho e - são os números 10 que muita gente não tem. No Marítimo, a dificuldade tem sido mantê-lo em estado de alerta permanente.

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Mas a questão coloca-se vezes sem fim: "O que está ali a fazer?" E, entre as várias respostas, nenhuma satisfaz em pleno a sua qualidade futebolística.

A última palavra de Neca

Era uma referência técnica da SuperLiga, chegou a internacional A e tinha um futuro grande pela frente. De um dia para o outro, a Selecção acabou, o Belenenses de Marinho Peres desfez-se e, máxima surpresa, ainda perdeu lugar na equipa.

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Agora, em vez de desmobilizar perante a concorrência feroz, entusiasmou-se com o desafio que põe à prova o orgulho de ser futebolista. Neca está apenas a confirmar que não se rendeu. E exige ter uma última palavra sobre a carreira.

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