1. Se o instinto é um atalho que abrevia o caminho para a acção sem pedir satisfações ao raciocínio; se o talento, na sua expressão mais genuína, é fruto de uma ciência inconsciente que não se aprende; se o futebol cresceu associado à ideia de criatividade, impulsionado pelo génio de homens livres que nasceram íntimos da bola e se tornaram eternos, Ricardo Quaresma, aos 20 anos, transformou-se num dos jogadores mais antiquados do Mundo. Ele é o aventureiro que se faz à estrada sem estudar o plano de viagem numa época em que tudo está subordinado ao guião do treinador; o ilusionista que inventa golpes de magia pelo caminho quando o risco não está autorizado e é punido com o banco de suplentes; o visionário que ainda acredita na capacidade individual num tempo orientado pelos conceitos repressivos de ordem e disciplina.
2. Ricardo Quaresma possui recursos únicos, porque o talento futebolístico continua a expressar-se preferencialmente pela via da mentira: os pés são executores das falsidades geradas no extremo superior do corpo; a cintura revela o contrário do que pretende fazer; as pernas servem para acelerar, travar e mudar de direcção; o olhar é o cúmplice da tramóia, porque nunca se dirige para o local escolhido como destino da bola. Naquele estilo desprendido, malandro, que sugere superficialidade mas cria, automaticamente, elos inquebráveis de sedução, concentra todas as atenções. Porque não satisfaz a estatística, jamais será uma estrela consensual; por jogar no limite do erro, é avaliado em cada lance; por ser um refractário à monotonia não falta quem lhe agradeça mas, por idênticos motivos, também há quem o puna de forma escandalosa.
3. Em Barcelona, a polémica tem sido alimentada pelas forças habituais nestas circunstâncias: de um lado, os adeptos que o adoram e os adversários que o temem; do outro, os companheiros que reclamam solidariedade e um treinador exigente com o cumprimento das obrigações colectivas. Apesar da aparente confiança em si próprio, Quaresma é um jogador de moral oscilante, que reage mal ao erro e pior ainda ao assobio, à recriminação e ao castigo; um jovem que, ao sentir-se discutido, inicia viagem de sofrimento com paragem na angústia, na tristeza e na infelicidade. O primeiro balanço de cinco meses como Harry Potter da Catalunha mostra-o menos confiante, mais funcionário e, por isso mesmo, pior jogador. Um dado transitório, é certo, mas reflexo de agitação que já fez vítimas - Riquelme é o caso mais emblemático.
4. Condicionado pela urgência e pouco disponível para definir estratégia coerente, o Barça é hoje um clube igual aos outros, que negou o legado estético de Johan Cruijff e aceitou orientar-se pelo pragmatismo. As dificuldades de Quaresma, o inimigo da linha recta e da rotina que danifica o instinto, confirmam que o talento pode, a curto prazo, transformar-se numa subversão condenada à clandestinidade. Até lá, porque a luta não acabou, a esperança não morreu e a rebeldia o agiganta perante a mediocridade, continua empenhado em acrescentar fantasia a um futebol de fabrico em série, uniformizado por objectivos mesquinhos e ideias não discutidas. É pelo direito à diferença que está disposto a lutar. Ciente de que o sucesso em qualquer actividade criativa está sempre dependente da imaginação.
O bom e o mau do sorteio do Euro-2004
Aconselha a etiqueta, em vésperas de sorteios, sobretudo os referentes às fases decisivas das grandes provas, que não há por onde escolher. Não é totalmente assim. Olhando para os parceiros possíveis de Portugal na primeira fase do Euro-2004, eis o que parece, à primeira vista, um resultado positivo: Alemanha (apesar de tudo), Rússia e Letónia. Mas e se as bolinhas resolverem pregar-nos uma partida? Já viram o que seria um grupo com Itália, Holanda e Grécia?
O local do crime
Por cansaço e excesso de confiança deixou a bola fugir sem explicação. "Escândalo", disse parte da bancada, "força Roger" respondeu a claque. Pouco depois voltou ao local do crime para escutar o que tinham para dizer. Como acabara de marcar um golo fabuloso, ouviu as desculpas de uns e os agradecimentos de outros. Todos em festa.
O desafio de Hugo
Lutou contra a dúvida, o preconceito e a injustiça, até obter a vitória da simpatia e do reconhecimento. A grave lesão no tendão de Aquiles interrompe o seu processo de afirmação mas é apenas um mero obstáculo na vida de quem já sofreu muito para aqui chegar.
Percebem agora?
É preciso ir devagar, porque só tem 19 anos; a prudência faz parte da pedagogia e há alternativas no plantel. Às explicações para as poucas oportunidades de João Pereira no "onze" encarnado, junta-se outra: se fizer três jogos a titular salta de 1500 euros mensais para 5000.
Viva a democracia
O Benfica não acompanhou o investimento de Camacho em João Pereira (viva a distracção) e porque a situação contratual ficou pendente condenou-o ao silêncio (viva a democracia). Salvo melhor opinião, o mais inteligente era ter renovado em tempo útil (boa gestão) e permitir ao rapaz falar como cidadão livre e responsável (bom exemplo).