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1. Já tem um capítulo no manual dos médios-centro: pela racional ocupação do espaço na zona onde tudo se decide, é a referência máxima da organização; pelo modo como corta linhas de passe e dá seguimento ao jogo, é decisivo para o equilíbrio; pela segurança nas marcações, dá o indispensável exemplo de concentração e entrega. Com o suporte de uma liderança técnica indiscutível, na qual assentam muitos dos pressupostos estratégicos e ideológicos do FC Porto de José Mourinho, Costinha é precioso na orientação do posicionamento colectivo. A partir da sua inteligência táctica, da extraordinária riqueza de soluções defensivas e do escrupuloso cumprimento de funções definidas com rigor, nasceu e cresceu uma das melhores equipas da Europa dos últimos dois anos.
2. Reunidas as condições para desempenhar na íntegra o papel de médio-centro, Costinha assumiu as responsabilidades e expandiu a influência por todo o campo. Quando lhe permitiram delimitar território sem o repartir, respirou fundo e aceitou submeter-se ao sufrágio para ministro da administração interna da nação azul e branca. Eleito sem votos contra, agiu de acordo com as novas circunstâncias, não abdicando dos seus princípios como futebolista e do peso relativo da função que desempenha: concordou com o projecto, assimilou a ideia, confirmou a perfeita distribuição das tarefas e tornou-se o denominador comum da mais excepcional formação portuguesa das últimas décadas. Pode não ser o melhor, o mais brilhante ou o mais reconhecido no exterior. Mas é, sem qualquer dúvida, o mais importante para a segurança da comunidade.
3. Costinha desempenha no FC Porto o mesmo papel de Guardiola no Dream Team de Cruijff em Barcelona (define o rumo); está para Deco e Derlei como Rijkaard esteve para Gullit e Van Basten no grande Milan de Sacchi (é o administrador que dá sentido à criatividade) - meros exemplos de que até os mais virtuosos só expressam a totalidade do talento em cenários de organização colectiva. Se os processos de jogo estiverem muito dependentes da inspiração e restantes factores circunstanciais, o êxito torna-se destino demasiado longínquo. Na Selecção Nacional o problema ainda não foi resolvido: estímulo constante aos duelos individuais, num conjunto em que os craques não salvam a equipa, nem a equipa cria as condições necessárias para ajudar os craques.
4. Mesmo sabendo que o equilíbrio global depende mais de ordem e menos de quilometragem, Costinha não teve remédio frente à Itália. Como a ordem era escassa e havia funções não atribuídas - razão pela qual não se sobrepôs a quem quer que fosse -, entregou-se a correrias e choques por todo o terreno. Fê-lo por generosidade e porque tem apurada consciência táctica; por actuar numa zona que releva as insuficiências funcionais, tornou-se o espelho fiel de um conjunto ao qual o sorriso foi escapando ao longo da noite. Ele, o sr. ministro, andou por ali de vassoura na mão a limpar a zona sem outros objectivos. Para um médio-centro de referência à escala europeia, não deve ser agradável vestir a pele do detestável "trinco" que já não cabe no futebol dos nossos dias.
Acreditemos que ainda é possível
Scolari aceitava a cobrança ao fim de cinco jogos (já lá vão…); ia mudar a mentalidade (como se viesse para um clube) e pôr a equipa a jogar menos bonito e a ganhar (só cumpriu metade da promessa). Lastimou então ter pouco tempo com os jogadores (até parece que nunca trabalhou numa selecção) e anunciou a chave para o êxito: os vinte dias que antecedem o Europeu. Agora já só interessa a convicção de cada um: ter ou não ter esperança, eis a questão. Acreditemos que ainda é possível.
PASSE CURTO
Esquecer Van der Gaag
A defesa belenense trabalhou durante a semana os lances de bola parada. Num pontapé de canto os marcadores azuis cumpriram a sua tarefa, mas esqueceram-se de Van der Gaag, o holandês que é, correndo o risco de exagerar, o melhor cabeceador da SuperLiga. Resultado? Foi golo. Estavam à espera de quê?
Geniozinho outra vez
Nuno Assis é a mola criativa de uma equipa afectada pela desinspiração. O geniozinho de Guimarães, engolido pela crise de resultados, tomou a iniciativa e impôs argumentos. Em Alverca não olhou para trás e, face a um adversário directo, marcou um golo e ganhou o jogo.
Quanto vale um frango?
Ricardo deu um frango em Braga, pela Selecção, Vítor Baía seguiu-lhe as pisadas, três dias depois em Guimarães, frente ao Gil Vicente. Para a concepção absoluta de um guarda-redes, deslizes daqueles têm valor redondo: zero.
A resposta de Paulo Bento
Sofreu com a desilusão; porque o golpe foi duro demorou a reagir; por ser um grande profissional e um jogador acima de qualquer suspeita está pronto a dar o contributo à equipa na fase decisiva da época. Perante oportunidade que surgiu por maus motivos (lesão de Custódio), a resposta dada em Braga foi um anúncio de tranquilidade para os tempos que aí vêm.