1. No Mundial de 1958, o seleccionador brasileiro, Vicente Feola, entusiasmou-se com a habilidade do sueco Hamrin. Nilton Santos, um dos melhores defesas da história, ripostou quase ofendido: “O senhor tem aqui Pelé e Garrincha, que fazem aquilo muito melhor, e deixa-os no banco”. Quase meio século depois, o desfasamento entre palavras e actos de alguns treinadores permanece actual. A tendência irreprimível para adorar futebolistas que, à primeira contrariedade, são abandonados à sua sorte, constitui escândalo de que Quaresma, Hugo Viana e Postiga são belos exemplos. Melhor sorte teve Ronaldo. Para lá das qualidades genéticas, cruzou-se com dois mestres (Ferguson e Queiroz) que assumiram o desígnio pedagógico de o ensinar, estabelecendo o céu como limite para o crescimento.
2. Cristiano Ronaldo ultrapassa todos os convencionalismos para obedecer à espontaneidade, origem das sucessivas rajadas de talento cujos efeitos permanecem muito para lá da sua passagem; no mar tenebroso das marcações apertadas e sem pudor, ele é a corrente de imaginação que suscita a vertigem do deslumbramento e o terramoto emocional que devolve o futebol à expressão mais sublime. O jogo associado do Manchester United tardou em assimilar aquela peça solta da engrenagem; a austeridade tradicional dos ingleses aplaudiu a diferença mas torceu o nariz a extravagâncias e malabarismos. Dois anos e meio depois do início da aventura, todos se renderam à enciclopédia de truques associados à bola. É que o raio do miúdo faz tudo cada vez melhor. Incluindo o que não deve.
3. Porque a idade cura os efeitos nefastos do exagero e aumenta a sobriedade; porque estimula o prazer de jogar com os outros e ajuda a estabelecer diferenças entre recreio e eficácia, Ronaldo aproximou-se do equilíbrio sem o qual jamais será registado como património da humanidade. Jogador que só sabe lidar com o extraordinário, falta-lhe concluir a adaptação à rotina do quotidiano. Não se trata de transformá-lo, dentro e fora dos relvados, num daqueles meninos de coro que, de tão bem-comportados, nunca levantarão voo; nem obrigá-lo a viver como eremita, logo agora que descobriu novos prazeres da vida – mesmo que tenha visto a imprensa cor-de-rosa invadir-lhe a privacidade. O fenómeno é susceptível de ser melhorado mas assenta num estilo definitivo e incorruptível.
4. Quando toca a bola, Ronaldo lança sobre o jogo um inspirador vendaval de assombro e felicidade. O modo como se movimenta por caminhos labirínticos com a segurança de quem viaja numa auto-estrada faz dele um visionário; a arte de ser rápido e mágico em engarrafamentos infernais transforma-o num caso raro à escala planetária. Essas torturas de fantasia são excessivas para quem as sofre na pele, razão por que, no final de cada jogo, os seus adversários directos parecem saídos de um naufrágio: exaustos, perdidos, empenhados apenas em sobreviver ao desastre sem humilhações. O ano de 2005 representa outra etapa vencida na afirmação plena de um génio cujo destino, mais tarde ou mais cedo, é juntar-se a Eusébio e Luís Figo no patamar superior dos melhores e mais reconhecidos jogadores portugueses de sempre.
A Juventus e o Chelsea-Barcelona
Entre fins de Fevereiro e princípios de Março, o futebol irá proporcionar um daqueles momentos extraordinários, que extravasam as fronteiras do jogo e cuja importância só se compara à de uma cimeira para decidir os destinos do Mundo: de um lado a mais consistente e moderna equipa da Europa (o Chelsea, de Mourinho); do outro o naipe de génios que melhor funciona colectivamente no futebol actual (o Barcelona, de Rijkaard). Uma eliminatória que só não é uma final antecipada porque, enquanto por lá andar, ninguém é mais favorito do que a Juventus de Capello.
O abono de família azul
Meyong teve um 2005 fabuloso: foi decisivo no triunfo do V. Setúbal na Taça de Portugal e, depois, assinou 10 dos 17 tentos que o Belenenses apontou até ao momento. Uma notícia boa: despediu-se do ano com 2 golos sensacionais (Paços de Ferreira e Académica) que aliviaram a pressão sobre a equipa; uma notícia má: vai estar na CAN durante um mês, deixando os azuis órfãos do seu principal abono de família.
A trave mestra da surpresa
Moderou os ímpetos grosseiros que o caracterizavam e aperfeiçoou antecipação e posicionamento; ao fim de 16 jornadas, é um dos melhores centrais do campeonato e a trave mestra do surpreendente Nacional. Ávalos, o argentino que reforçou o Boavista em 2001, viu a carreira a esvaziar-se lentamente desde então. Na Madeira recuperou a esperança; em 2005/06 assumiu-se como jogador apto a satisfazer todas as exigências.
Ele, a idade e Ronald Koeman
É um jogador mais sereno, com outra noção de espaço e equilíbrio; tornou-se um líder não apenas pelo exemplo de disponibilidade física mas também pela segurança de processos, pela visão mais ampla e pelo refinado entendimento táctico do jogo. Petit conclui 2005 com dimensão futebolística superior: mais racional no esforço, preciso no passe e seguro a levar a bola. A idade e Ronald Koeman (mais do que Trapattoni) fizeram dele a máxima referência da Liga naquela função.