1. Quando entrou na sala, o foco das atenções estava concentrado na parte de trás do palco, onde nada se preservou dos olhares indiscretos e tudo se manteve ao alcance da ruidosa e implacável justiça popular: o director do teatro demitido, o encenador desrespeitado, os actores descompostos, as cadeiras desarrumadas e o lixo espalhado pelos cantos confirmavam as dificuldades para quem se propunha fazer quase tudo de novo e assumia, ao mesmo tempo, a obrigação de reencontrar uma fórmula para o êxito. Lá fora, o público de bilhete na mão reclamava a entrada, ruidoso e impaciente, recuperando a verdade de que, nesta vida de compromissos assumidos, o espectáculo não pode parar. Paulo Bento liderou, a partir de então, um trabalho colectivo que visou unir a família, concentrar forças e restituir dignidade à peça. Já excedeu em muito esse objectivo inicial. Para início de conversa não está nada mal.
2. Bento desenhou um estilo, uma forma de estar em campo e um método para o cumprir; definiu um sistema para apoiar o talento, fazendo-o em função das suas ideias mas também das características dos jogadores; teve sentido da prudência na relação com a equipa e assumiu um discurso atrevido e ganhador, irreverente com o cenário de apocalipse que o enquadrava. Para aliviar a pressão e não fazer do erro um drama colectivo, pediu rigor e honestidade no trabalho sem desautorizar os sonhos e as emoções. Não foi bem uma terapia de choque, mas serviu para atenuar os efeitos nefastos de um período no qual, sabemos agora pela voz de alguns dos principais intervenientes, o clima de tensão interna estava a minar o grupo – e a desconfiança é um sentimento insuportável entre quem está obrigado a remar para o mesmo lado.
3. Este Sporting que se encontra a 2 pontos do líder é uma equipa fascinante, que transmite mensagem de esperança, suscita ternura pela juventude e faz do custo zero parte da dieta indispensável para ter saúde e encarar o futuro sem dramatismos. Paulo Bento valorizou o profissionalismo e tem sido intransigente com aqueles que não reagem a estímulos básicos como o afecto e a responsabilidade perante a equipa, os companheiros, os adeptos e o clube. Marcado pelo exemplo de Mário Jardel, aprendeu com Laszlo Bölöni que não pode fazer concessões para salvar jogadores problemáticos – na época seguinte ao título 2002/03, ao pretender recuperar um elemento especial, o romeno acabou perdendo o respeito de todos os normais. E isso paga-se, mais cedo ou mais tarde.
4. Agora que o futebol caminha para um estado científico sustentado pelo êxito, Paulo Bento rege-se, nesta fase embrionária da carreira, pelas verdades mais simples do jogo e pelo seu enquadramento na realidade específica do Sporting. Interpretou as vantagens do senso comum e aplicou-as suportado na cultura de clube, no conhecimento da casa, na identificação com os jogadores e nas dificuldades que os rodeiam. Não se esqueceu do futebolista que foi e, sensível ao desgaste da vida em comum, valorizou o balneário como espaço sagrado, que oscila, consoante os resultados, entre medo e esperança, insegurança e euforia. O de Alvalade vive a felicidade da superação, do renascimento surpreendente para quem chegou a estar perdido para o título e se vê agora por dentro da corrida. Em tempo de inovações metodológicas, poderá pensar-se que Paulo Bento está fora de moda – como diria Menotti (alvo da mesma suspeita), “Platão, Mozart e Chaplin também”. Se estiver, convenhamos que está muito bem acompanhado.
A SENSAÇÃO DO DEVER CUMPRIDO
A arbitragem do Barcelona-Chelsea foi miserável, conduzida dentro de parâmetros que fizeram escola em Portugal. Como o jogo era de alto risco, o juiz montou escritório no círculo central e não permitiu que a bola se aproximasse das áreas; inclinou o campo a favor do Barça, apitou mais de 50 faltas, algumas ridículas, e evitou que se jogasse futebol.
No fim, assinalou uma grande penalidade indevida a favor do Chelsea, acabou o jogo logo a seguir e foi à vida dele com a sensação do dever cumprido: acabara de enganar mais uns parolos.
O golpe inesperado
A lesão de Jorge Andrade levantou inesperado problema a Scolari, obrigando a reflectir sobre um sector que já não fazia parte dos problemas – a dupla com Ricardo Carvalho é uma das melhores do futebol mundial.
O País está em sobressalto à procura de alternativa – Pedro Emanuel, Tonel, Beto, Ricardo Rocha, Ricardo Costa, Zé Castro, Fernando Couto… Não quero desiludir-vos, mas a Selecção ficará sempre a perder com a troca.
"Não faz mais isso"
Quando se dirigiu a Paulo Machado, a seguir à miserável entrada deste sobre Petit, o árbitro levava um conselho: “Não faz mais isso.” Eu, se estivesse no lugar de Paulo Costa, teria mensagem idêntica, mas recusaria palavras: mostrava-lhe o cartão vermelho.
O mais espantoso é que, depois, arranjou motivo para mostrar o amarelo por dez vezes, a últimas das quais a Robert porque levou muito tempo a sair do campo. Brilhante.
Da cabeça aos pés
Ninguém marca 3 golos num jogo por acaso, menos ainda se os faz com os requintes de Saganowski frente ao V. Setúbal: com o pé direito, à boca da baliza; numa cabeçada esplendorosa e com o pé esquerdo, na execução de um chapéu fabuloso.
O polaco está a confirmar-se como grande jogador e excelente avançado (apontou metade dos 20 golos da equipa). Sabem o que vos digo? Com exemplos destes creio que o V. Guimarães vai acabar a Liga na primeira metade da tabela.