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Ao longo dos últimos anos, o modelo de negócio dos principais clubes portugueses passou a basear-se na aquisição de ativos com potencial elevado, para posterior valorização e venda por valores superiores a emblemas com maior capacidade financeira. Um posicionamento que colocou as equipas nacionais num lugar intermédio da “cadeia alimentar” e que, além de resultados económicos, também permitiu rendimento desportivo.
Costumo dizer que Portugal se tornou no viveiro da Europa, uma montra que todos os anos consegue lançar novos talentos, atrair olheiros de vários clubes ao longo de uma temporada e realizar transferências milionárias. No entanto, há indícios de que os clubes estão a perder o controlo deste negócio para outras entidades.
Por força de deterioração da sua situação financeira, as equipas portuguesas são cada vez menos donas dos seus ativos, alienando uma parte ou até a totalidade dos passes dos seus jogadores a fundos de investimento. Mesmo no processo de prospeção dos clubes, na hora de avançar para uma aquisição de um novo jogador promissor, e porque os níveis de tesouraria não esticam, estes fundos começam a ter uma palavra a dizer na escolha do atleta que querem ou não financiar e até colocam um ou vários jogadores da sua carteira no mesmo clube. Esta é também uma das razões pelas quais a aposta na formação tem ficado para trás.
Está claro que a situação fragiliza os clubes, sobretudo na hora de vender os atletas valorizados, pressionados para dar retorno aos seus investidores e nem sempre tendo margem de manobra para realizar o melhor negócio possível. Com este cenário cada vez mais visível nos Relatórios e Contas das SAD, os clubes portugueses correm cada vez mais o risco de se tornarem “barrigas de aluguer” ao serviço de entidades desconhecidas e movidas pelo lucro, menosprezando qualquer ideal de projeto desportivo. E por que se sujeitam os clubes a esta situação? Porque não têm liquidez.
A título de exemplo, o Benfica apenas detém 50% do passe de Markovic, o Sporting tem direito a 25% dos direitos económicos de Marcos Rojo, e pouco mais de 50% do passe de Mangala são detidos pelo FC Porto. Estes três jogadores estão a ser cobiçados por vários tubarões europeus e não é difícil perceber que o seu destino será determinado também por estas terceiras partes que são suas proprietárias.
Os fundos de investimento de jogadores não são, na teoria, uma má ideia. Na verdade, até ajudam os clubes médios a equilibrar a balança no que respeita à sua competitividade desportiva e podem ser um interessante parceiro de negócio. Mas é necessária uma maior regulação destes intervenientes no mercado futebolístico, promovida pela UEFA (que tem estado atenta ao assunto) e respetivas federações, que identifique os investidores, que não torne os clubes reféns do poder económico dos fundos, transformando-os em entrepostos de jogadores.
Como em tudo na vida, há que ter regras para que ninguém saia lesado. Um mercado de fundos “selvagem” é mau. Já uma atividade regulada até trará efeitos positivos. É a sustentabilidade dos clubes portugueses que está em causa e, a menos que surjam grandes investidores estrangeiros a entrar no capital das SAD, se nada for feito os clubes tendem a ficar com as suas contas ainda mais no vermelho, um cenário preocupante numa altura em que o fair play financeiro da UEFA já começa a ter as primeiras vítimas.
O CRAQUE
Talento de partida
A confirmar-se a sua saída da Luz, Lazar Markovic deixará a liga portuguesa mais pobre. Com uma habilidade técnica e velocidade acima da média, o sérvio é um daqueles jogadores que têm a rara capacidade de resolver uma partida em qualquer momento, um “match winner” que todos os clubes gostam de ter, mas nem por isso são fáceis de encontrar. Markovic chegou, viu e venceu no Benfica. Foi um jogador muito importante na última temporada das águias e a sua ausência será sentida. Espalhou magia e agora está de partida. É a sina dos clubes nacionais.
A JOGADA
Um jogo para a história
Era quase impossível imaginar que o Brasil pudesse ser goleado na sua própria casa por 1-7. A Alemanha cometeu essa proeza. Sublimes na forma e no conteúdo, os alemães mostraram pujança física, capacidade técnica, espírito de grupo e organização tática para desmontar facilmente uma desequilibrada equipa brasileira que não teve argumentos. Uma palavra também para o profissionalismo e respeito dos germânicos durante e após o jogo. Uma lição que ficará para a história, para ser falada daqui a muitas décadas, como o dia em que o país do futebol chorou a sua maior derrota de sempre.
A DÚVIDA
A força da ingratidão
Se hoje é alguém no mundo do futebol, Jorge Fucile deve isso ao FC Porto. Os dragões encontraram-no num clube modesto do Uruguai e fizeram dele uma mais-valia com nível de seleção. Ouvir um futebolista que é pago a peso de ouro, quer jogue quer não jogue, dizer que foi vítima de escravatura, é ridículo e cheira a ingratidão. Pena que não tenha falado sobre os casos de indisciplina que protagonizou, desrespeitando hierarquias, e da condescendência do clube ao lhe dar novas oportunidades. Outros atletas, por muito menos, não tiveram a mesma sorte. Será um problema de memória curta?