_
Afinal quem detém a hegemonia no futebol português? Entramos na recta final do campeonato e o Benfica parece muito bem encaminhado para poder fazer uma ultrapassagem histórica ao FC Porto, considerando o número de troféus em todas as provas oficiais, nacional e internacionalmente. Cada uma das equipas ainda pode conquistar até dois troféus ao longo desta época - o Benfica o campeonato e a Taça da Liga e o FC Porto o campeonato e a Liga dos Campeões - mas a tarefa dos encarnados nesse sentido parece bem mais fácil de concretizar do que a dos azuis-e-brancos.
Considerando as provas passíveis de ser contabilizadas (Liga, Campeonato de Portugal, Taça de Portugal, Supertaça, Taça da Liga, a nível nacional, e Liga dos Campeões/Taça dos Campeões, Liga Europa/Taça UEFA, Taça das Taças, Taça Intercontinental e Supertaça Europeia, a nível internacional), o FC Porto conta neste momento com 74 troféus, o Benfica, 73 e o Sporting com 45. Desde que Pinto da Costa passou a presidir aos destinos do FC Porto (82-83), o clube do Dragão conquistou 20 títulos de campeão nacional, contra 9 do Benfica (Fernando Martins, João Santos, Jorge de Brito e Luís Filipe Vieira foram, nesse período, os presidentes campeões dos encarnados), 2 do Sporting (José Roquette e Dias da Cunha) e 1 do Boavista (João Loureiro).
Há, pois, uma hegemonia contabilística do FC Porto no futebol português, que se transformou numa hegemonia formal, em razão dos resultados obtidos pelos portistas nas últimas duas décadas. Desde 91-92, em 23 épocas, o FC Porto só perdeu 7 campeonatos: 4 para o Benfica, 2 para o Sporting e 1 para o Boavista. Muito significativo. Desde 83-84, quando Fernando Martins e Eriksson conseguiram o último bicampeonato para o Benfica, que os encarnados nunca mais voltaram a protagonizar essa proeza. Nesse período, o FC Porto impediu sempre que um adversário conseguisse conquistar dois títulos de campeão nacional consecutivos e só uma vez viu dois emblemas impedirem que o FC Porto estivesse mais de três épocas sem ser campeão. Aconteceu entre 1999 e 2002 e a intrusão foi estabelecida pelo Sporting e pelo Boavista. Por isso, a possibilidade de o Benfica voltar a ser bicampeão (como aconteceu em 82-83 e 83-84) não pode deixar de se considerar histórica. Seria também a primeira vez que Luís Filipe Vieira conseguiria uma proeza do género, curiosamente com o mesmo treinador (Jorge Jesus), à semelhança do que havia acontecido com Fernando Martins e Eriksson.
Agora que se começam a fazer contas, e aparecem as mais diversas versões consoante as cores e os paladares, é tempo de se reconhecer que a hegemonia do FC Porto é contabilística e formal, se atribuirmos a todas as provas o mesmo valor, o que me parece errado. Com efeito, pode falar-se de dois tipos de hegemonia do FC Porto: a hegemonia conquistada nos últimos 30 anos e que se acentuou nos últimos 23 e a supremacia no plano internacional, em que mais nenhum clube português está em condições de contestar, nesse âmbito, a capacidade de resposta portista (7 troféus conquistados pelo FC Porto, 2 pelo Benfica e 1 pelo Sporting).
Considerando, porém, a história completa dos clubes portugueses no futebol nacional e internacional e, repito, estamos a falar de títulos oficiais, a hegemonia do FC Porto é uma história mal contada. Na verdade, não é justo que se atribua o mesmo valor à conquista do Campeonato Nacional e da Taça de Portugal comparativamente a um troféu que se obtém, regra geral (já houve excepções), através da realização de um único jogo (Supertaça). Com efeito, esta contabilidade de troféus que, na soma das provas nacionais e internacionais, coloca o FC Porto com uma ínfima vantagem (de 1 troféu a mais) sobre o Benfica, resulta em grande parte do número de Supertaças conquistadas pelo FC Porto (20), em comparação com o Benfica (5) e Sporting (7). Não é justo. A hegemonia do Benfica é maior do que parece: obteve 33 títulos de campeão nacional contra 27 do FC Porto e 18 do Sporting e alcançou 25 Taças de Portugal contra 16 do FC Porto e 15 do Sporting.
Repete-se: o FC Porto é o clube que, competitivamente, melhor tem representado o futebol português no plano internacional, mas nas provas mais importantes do calendário futebolístico doméstico (Campeonato Nacional/Campeonato de Portugal, Taça de Portugal e Taça da Liga) a supremacia do Benfica é manifesta. Considerando estas competições, sem dúvida as de maior peso, a vantagem do Benfica para o FC Porto é de 66-47 e para o Sporting de 66-37. Creio que faltava esta clarificação porque o Benfica é mais hegemónico do que parece.
JARDIM DAS ESTRELAS
***
Nani faz pensar
Nenhuma dúvida sobre o valor e a utilidade de Nani no Sporting 2014-15. Com ele ou sem ele, o Sporting estaria sempre obrigado a conseguir, no mínimo, o 3.º lugar na Liga portuguesa. O que nos leva a concluir que a eficácia da presença de Nani em Alvalade - considerando os objectivos mais optimistas - foi relativa. Há, contudo, um aspecto que importa relevar: o comportamento disciplinar. Na Liga portuguesa, em 23 presenças, Nani viu 10 amarelos. Na Liga inglesa, em 147 (!) jogos, em quase 8 épocas, viu 8 amarelos. O critério dos árbitros ingleses é mais largo, sem dúvida - aqui marca-se falta por tudo e por nada - mas também é verdade que Nani abusa do estatuto, com protestos e mais protestos. Conclusão: o crédito da Liga portuguesa é baixo, porque ninguém se respeita e poucos se fazem respeitar. Dá que pensar.
O CACTO
Muitos a ganhar
A defesa ibérica dos fundos de investimento e a máquina jurídica que combate desesperadamente a decisão da FIFA em impedir a partilha dos passes de jogadores com terceiros, a qual passa a ter aplicação a partir de 1 de Maio, não defendem o futebol. Defendem os negócios privados de uma elite, a falta de transparência, o conflito de interesses e a sustentação de um futebol artificial em que os clubes e as SAD estão cada vez mais exauridos financeiramente e os promotores desses negócios (pouco claros) cada vez mais ricos. Dá que pensar.