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O cerco está montado: basta ler a imprensa das últimas duas semanas - com o “Seixal” a servir de pano de fundo -- para perceber que Jorge Jesus ou aceita as determinações da SAD e do seu presidente, Luís Filipe Vieira, em relação ao papel da Formação no futuro do Benfica, ou o melhor é ir à sua vida. Não será exactamente um ultimato – porque um ultimato corresponde a uma confrontação directa – mas é uma forma encapotada de se dar um sinal claríssimo a Jorge Jesus segundo o qual, a partir da próxima época, não há mais tergiversações; a política de contenção, plasmada no aproveitamento dos jogadores “made in Seixal”, é para avançar, custe o que custar, inclusive o lugar do treinador.
Está em marcha uma estratégia com uma clara matriz comunicacional: não há confrontação; há a certeza de que a mensagem (ou o recado) chega a quem tem de chegar: a Jorge Jesus. De resto, não faz sentido que haja confrontação: para além das relações cordiais entre presidente e treinador, que terá muito a ver com o significado que ambos dão à expressão “subir na vida a pulso”, os dois sabem que Vieira deu muito a Jesus – condições de trabalho e remunerações -- e Jesus deu muito a Vieira: recuperação de uma imagem de competitividade compatível com a grandeza e a história do clube, resultados desportivos e valorização de “activos”. As dívidas de gratidão cabem no espaço da consciência individual mas ambos sabem que, nesse aspecto, há uma espécie de “empate técnico” e, em síntese, ninguém deve nada a ninguém. Isso torna o tema mais sensível, porque não há argumentário suficiente para colocar um sobre o outro (salvo seja).
Todos sabemos, no entanto, que o presidente do Benfica quer um Benfica mais português. Não exactamente em nome de um regresso às origens, porque o ordenamento sócio-político é completamente diferente – chegou a democracia, desapareceu o conceito de ultramar, as fronteiras abriram-se, o futebol alcançou a dimensão de indústria e globalizou-se – mas porque, com a crise financeira instalada e com a ausência de soluções de financiamento, só há uma forma de evitar o descalabro: cortar na despesa.
O mecanismo de Fair-Play Financeiro introduzido pela UEFA veio, também, face às crónicas derrapagens e a um (péssimo) hábito instalado nesse sentido, impor alguma disciplina. Os clubes portugueses geradores de maiores receitas já perceberam que, mesmo em anos de boas vendas de jogadores, os custos e os compromissos bancários absorvem tudo. Em linguagem corrente: “está tudo falido”. “Apostar na Formação” é, pois, mais do que uma opção e um objectivo estratégicos. É um imperativo do qual já não se pode fugir. É preciso fazer baixar custos e rentabilizar não apenas o investimento nas infra-estruturas físicas dos centros de estágio como o do Seixal mas também os jogadores que lá são formados.
Cabe agora ao “bem pago” chef Jorge Jesus decidir se quer fazer omeletas com ovos de codorniz ou se é o momento de dar um novo rumo à sua carreira profissional. As Administrações, os Departamentos de Scouting e as Equipas Técnicas devem estar conscientes do ambiente recessivo que se vive: não há mais lugar a esbanjamentos ou a apostas no escuro e precipitadas. Cada compra tem de ser ponderada e escrutinada até ao limite. Cada venda tem de ser negociada até ao tutano. Por isso, não há mais espaço para orgulhos ou braços-de-ferro. Na verdade, não faz muito sentido vender, por exemplo, um André Gomes por 15 M€ e comprar um Samaris por 10.
Desde que Vieira chegou à Luz e no plano dos “activos” com quem tem trabalhado, Jorge Jesus foi o que de melhor aconteceu ao presidente do Benfica. Hoje, perante as conquistas feitas nos últimos 6 anos, tudo parece fácil. Mas é bom lembrar que, quando Jesus chegou ao Benfica, o futebol dos encarnados não tinha a mais pequena identidade. Em Abril de 2015, por alturas do Benfica-FC Porto, Jorge Jesus será o treinador do Benfica com mais jogos realizados na Liga e já é o que soma mais vitórias. Nunca a exigência foi tão grande no futebol dos “encarnados”. E isso, indiscutivelmente, fez o Benfica crescer.
Está na hora de um grande debate interno, olhos nos olhos, entre Vieira e Jesus. A renovação do contrato de Jesus faz todo o sentido para o futuro se Jesus assumir, com poderes alargados na estrutura técnico-desportiva, que tem condições para iniciar o processo de requalificação, a partir da base, do jogador “à Benfica”. Jogadores que, entre os 18 e os 20 anos, estejam em condições de jogar na equipa principal. Se não for assim, não vale a pena pressõezinhas, ultimatos (mais ou menos subtis) e seus derivados. Aproxima-se a hora da verdade. Já chega de recados.
JARDIM DAS ESTRELAS (4)
Talento...Carrillo!
Esta Liga tem equipas muito fracas (há algumas épocas que não víamos um punhado de equipas tão frágeis), como ficou claro no jogo no Bessa, no qual emergiu, do lado do Sporting, o peruano Carrillo, emprestando velocidade ao talento. Alguém deu pela falta de... Nani?
O CACTO
A farsa e o lodo
Esta questão dos empréstimos e da (não) utilização dos emprestados quando jogam com o emprestador, cujo exemplo mais recente é este que envolve Miguel Rosa e Deyverson (Benfica/Belenenses), precisa de ser repensada e reenquadrada, regulamentarmente. Tem de ser garantida equidade entre parceiros, em nome da integridade das competições. Ou se proíbe a utilização nos jogos em que os emprestados jogam com o clube-emprestador (regra para todos) ou se introduz a condicionante segundo a qual não pode haver empréstimos entre equipas do mesmo escalão. A pressão que se gerou, na Amoreira, sobre Tozé não é aceitável. Os jogadores, se jogam, devem dar tudo pela camisola que, naquele momento, envergam. Caso contrário, é uma farsa. Às vezes, porém, os jogadores envergam uma camisola mas quem lhes paga o ordenado é outra entidade. Esta indefinição não é boa para a verdade desportiva. É preciso agir. E é nestas alturas que um presidente da Liga deveria ter força estatutária para (se) impor. Não é o caso e, por isso, a questão tem tudo para continuar no lodo.