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Benticídio no "ano de Portugal"

Benticídio no "ano de Portugal"

Dentro da FPF, com Madaíl e agora com Gomes, Bento teve a passadeira estendida para aplicar – sem um mínimo de reservas – os seus muito discutíveis critérios. Não são conhecidas reivindicações que lhe tivessem sido recusadas. Contou com veneração presidencial e, pela primeira vez na história da FPF, com apoio directivo de “homens do futebol” (Humberto Coelho e João Pinto). Bento fez as suas apostas, livremente, algumas das quais de risco elevadíssimo, como já era claro antes das declarações do médico Jones. O país não tinha outra alternativa senão confiar na soberania do seleccionador e dar-lhe o benefício da dúvida. As apostas falharam. A Selecção não alcançou os objectivos pré-definidos. Estamos perante um verdadeiro “Benticídio”, naquele que chegou a ser considerado (por Cristiano Ronaldo) como “o ano de Portugal”. Em 6 participações em fases finais de Campeonato do Mundo, só uma vez marcámos menos golos do que no Brasil. Foi em Saltillo. A Selecção Nacional fez preocupante marcha-atrás. Este Mundial representou um recuo de 12 anos. Depois de 2002, havíamos feito sempre melhor. De quem é a responsabilidade?

Portugal saiu do Mundial’2010, depois de ter passado a fase de grupos e sido eliminado nos “oitavos” pela Espanha, com a sentença de um fracasso. Mudou o seleccionador, mudou o presidente, mudou a estrutura (mudou a FPF), tocaram as trombetas do desanuviamento e da esperança e o deserto ficou menos povoado de camelos. Os jogadores podiam agora livrar-se das complicações, das regras, das chatices e das amarras e montar nas asas de Cristiano Ronaldo para alimentar o sonho. Agora é que era! O bom desempenho na fase final do Europeu, reconhecido por todos, apesar das dificuldades no apuramento (playoff), em duas fases distintas, adensou a expectativa em torno de uma “nova FPF”, mais ágil, mais prática, mais terra-a-terra. Depois do Scolari-vendedor-de-ilusões e do Queiroz-complicado-da-Silva era preciso recolocar as coisas no seu devido lugar. Era preciso dar espaço aos superagentes, às entidades bancárias, aos patrocinadores e aos VIP com acesso fácil e porreiro às coisas da Selecção Nacional. Arranjou-se a trama (também política) do antidoping e o país consumou a “grande vingança’. Nada contou: nem a memória, nem os projectos, nem o produto das reformas estruturantes; só interessava consumar a substituição, fosse com quem fosse, independentemente do currículo, e o regime escolheu Paulo Bento, alguém que acolhesse Cristiano Ronaldo e, principalmente, o superagente, Jorge Mendes, pivô de muitos interesses. Assim foi.

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Começou então a construção do grupo. Um grupo fechado, a comungar das mesmas simpatias e rotinas. Deu algum trabalho arranjar a cola de cimento. Foram dois anos de investimento num grupo com um perfil caracterológico comum. Afastaram-se todos aqueles que podiam colocar em causa a benta harmonia e acreditou-se, sem reservas, na emulação das qualidades deste grupo, entretanto mais envelhecido. Acontece que a presente época futebolística foi, para o núcleo duro, particularmente nefasta. Entre sobrecarga, lesões, recuperações difíceis e défices vários, o mapa da condição sinalizava casos de preocupação. O futebol ainda é para quem corre ou ainda é para quem pode correr. Ao problema de Ronaldo juntavam-se todos os outros problemas. Portugal conseguiu essa extraordinária proeza de utilizar 3-guarda-redes-3! O hospital em que se transformou a Selecção Nacional é um caso de estudo e, até prova em contrário, é uma manifestação voluntária de irresponsabilidade. Ninguém foi apanhado de surpresa e isso ainda aumenta mais a quota de irresponsabilidade. Negligência pura. O espírito de grupo não cura mazelas. E aqui reside o “suicídio de Bento”, isto é, o “Benticídio”, na sequência da sua falta de abertura para mudar. O conservadorismo táctico é uma questão visceral. Encaixa no perfil. A resistência perante a evidência de que William Carvalho tinha de jogar encaixa nesse perfil.

O desempenho desportivo da Selecção, ao nível de 1986 e 2002, deveria suscitar reflexão interna na FPF. Mas que acto de elevação e coragem podemos esperar de uma Federação se ela própria, como entidade pública, passa por cima dos seus estatutos e ética e leva na comitiva, em representação oficial, um director condenado perante os juízes por fraude fiscal? Num país a sério, Fernando Gomes teria sido convidado a demitir-se quando decidiu levar um dirigente condenado por fraude fiscal (João Pinto) na comitiva de Portugal. A falta de vergonha é total.

O JARDM DAS ESTRELAS

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Ricardo Costa e... William (****)

No balanço da presença de Portugal no Campeonato do Mundo, um cumprimento especial para o defesa Ricardo Costa e para o médio William Carvalho, que provou em campo ser a melhor solução para a posição 6. O central respondeu com qualidade quando foi chamado e foi o único que, em ambiente de conferência de imprensa, esteve à altura das suas responsabilidades. A seguir, Ruben Amorim e... Eduardo (1 minuto em campo). Cristiano Ronaldo não se apresentou em condições de estabelecer a diferença. A um nível um pouco inferior... só os que não jogaram: Neto e Rafa. Isso diz tudo da pobreza que foi Portugal neste Campeonato do Mundo.

O CACTO

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"Somos nós"?

Não é só com o futebol, e basta estar minimamente atento para perceber as ligações que permitem o acesso à televisão pública. Durante a cobertura do Mundial, não precisava de fazer zapping pela RTP para perceber o grau de compromisso que a televisão do Estado promove com as diversas franjas de poder. Olho para aquilo e vejo ainda “a outra senhora”. No futebol, com máximo respeito pelos profissionais, é um horror. Tantos convidados (escolhidos de acordo com o “tal perfil”) e sempre o mesmo rodízio de propaganda. É isto o serviço público? “Somos nós”?!

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