_

Bettencourt estica a corda

Após uma jornada em que o FC Porto foi incapaz de bater, em casa, o Belenenses e o Benfica somou, em Braga, a primeira derrota no Campeonato, quem concentra as atenções é... o Sporting! E não destaco o clube de Alvalade pelo facto de, pela quarta vez consecutiva, não ter sido capaz de ganhar uma partida da Liga. Isso, com toda a sinceridade, já não surpreende ninguém, nomeadamente os próprios adeptos leoninos.

O que suscita inúmeras discussões é o estranho posicionamento do presidente José Eduardo Bettencourt que, pese uma ou outra declaração mais inflamada, continua ciente de que afastar Paulo Bento não é solução para os muitos males de que padece o futebol sportinguista. Pelo contrário, o responsável parece sugerir o nome do treinador como única figura capaz de dar a volta aos acontecimentos.

PUB

Pelos vistos, na óptica do líder, a equipa jogar mal (com o Marítimo, diga-se, a exibição nem foi das piores), somar resultados negativos com impressionante regularidade, marcar poucos golos, estar cada vez mais distante da liderança (12 pontos) e em queda na classificação (já segue em sétimo) não é culpa do treinador.

Não tenho, como é óbvio, interesse algum em ver Paulo Bento afastado de Alvalade mas, por mais que tente encontrar uma explicação para a forma obcecada como Bettencourt lida com o processo, não a consigo descobrir. Bom, pelo menos num ponto dou o benefício da dúvida ao presidente: ninguém pode garantir que com outro técnico a situação tenderá a melhorar. É que todos nós desconhecemos o futuro e a única certeza que existe, pese os discursos optimistas no arranque da temporada (apontando, com pouca ou nenhuma objectividade, o título como meta), é que esta equipa é mediana. O que não ajuda nada...

Bettencourt também sabe que o conjunto é vulgar se projectado para altos vôos. E melhor do que ninguém admite ter sido incapaz de proporcionar ao treinador as verbas necessárias para reforçar (a sério) o plantel. Em relação a isso, concordo, a responsabilidade não é de Bento.

PUB

Mas, pelo menos que se saiba, sempre foi o treinador a escolher os titulares, a operar as substituições, a eleger o modelo táctico, a aprovar a entrada de determinados jogadores que jamais deveriam figurar num grupo com ambições e a sugerir ou concordar com a dispensa ou não contratação de outros que, indiscutivelmente, seriam mais úteis. E se no passado, com praticamente as mesmas opções, a equipa jogou mais e melhor, não seria exigível outro rendimento a uma equipa limitada, é certo, mas já muito rotinada?

Durante muito tempo, a explicação para os insucessos era a inexperiência da maioria dos atletas, depois passou a ser a diferença de orçamentos (como se Braga, Belenenses, Nacional, V. Guimarães ou Marítimo - tudo equipas que não perderam com o Sporting esta época - gastassem mais dinheiro...) ou as arbitragens. Agora, até a falta de sorte serve. Será que algum dia alguém se lembrará de olhar para o espelho e constatar erros próprios?

Bettencourt está a ter com Paulo Bento - que arrebatou vários troféus em Alvalade mas nunca o título - uma paciência que treinadores como Inácio (depois de colocar fim a um ciclo de 18 anos sem conquistar o Campeonato) ou Peseiro (esteve a escassos minutos de, em poucos dias, vencer a Liga e a Taça UEFA) jamais tiveram em Alvalade. E isto quando o seu consulado não começou propriamente ontem. Dar espaço para a evolução faz todo o sentido, mas esperar eternamente por algo, quando os resultados pioram em vez de melhorar, não é solução.

PUB

Ao deixar tudo na mesma, Bettencourt acaba por passar uma imagem de passividade que, num clube grande, pura e simplesmente não pode acontecer. Basicamente, nada se muda quando as coisas correm bem e nada se muda quando praticamente tudo corre mal. Não será com esta estratégia que o presidente irá guindar o clube para o lugar que já ocupou no passado. Aliás, a manter esta política muito mais tempo, o presidente irá ver os sócios a afastarem-se do Estádio. E, depois, do clube, com as acções de protesto a intensificarem-se. Se as eleições fossem hoje, Bettencourt era capaz de ter uma enorme surpresa...

Deixe o seu comentário
PUB
PUB