Carlos Queiroz e o Real Madrid

1. Quando o viram chegar ao topo, os homens do futebol aproveitaram as primeiras fragilidades: era óptimo, sim, mas para trabalhar com miúdos. Remoeram o êxito, celebraram as derrotas e sentiram-se aliviados com o adeus. Dez anos depois têm boas razões para se envergonhar. Carlos Queiroz foi escolhido pelo Real Madrid não para ensinar as maiores estrelas do futebol a fazer o que já sabem mas para dimensionar o produto final da melhor equipa do Mundo, com o objectivo de mostrar a cada um dos seus componentes que podem ser ainda melhores se souberem jogar uns com os outros. Acentua-se a bela vitória sobre a mediocridade de quem confunde o acessório com o fundamental, sobre aqueles que o enquadraram como professor de ginástica sem condições para trabalhar no futebol - os mesmos que enfiam a cabeça na areia e continuam a falar de José Mourinho, apenas e só, como ex-tradutor do Robson.

2. Carlos Queiroz foi condenado a um exílio indecente só porque, a partir das ideias, fragilizou dirigentes e desmascarou companheiros de ofício; encetou peregrinação pelos quatro cantos do Mundo só porque decidiu evitar a estupidez e não dar tréguas aos ignorantes que o atacaram com argumentos desprovidos de fundamento. Por via do estudo sistemático, do investimento na formação académica do treino e do talento natural para o aplicar, intimidou os incompetentes nas mais diversas frentes de batalha, nem todas com origem no fenómeno futebolístico. Revelou então a personalidade moldada pela excessiva ambição e um comportamento orientado por convicções inabaláveis, obstinação sentenciada exteriormente como prova de presunção, arrogância e vaidade extremas - e aí está outro ponto de contacto entre a sua história e a de José Mourinho.

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3. Atravessado o deserto, dos Estados Unidos à África do Sul, com passagens por Japão e Emirados Árabes Unidos, Queiroz foi surpreendido por Alex Ferguson que o escolheu para colaborador directo. Indiferente ao currículo, pediu informações, analisou o perfil, definiu um plano e tomou a decisão: seria o treinador do Manchester United, a principal fonte de riqueza da mais bem sucedida instituição do futebol actual. O enquadramento no quadro técnico e o seu peso no trabalho diário foram quase sempre deturpados à distância, com o objectivo de desvalorizar a proeza de quem se tornou maldito na sua terra pela simples razão de ser melhor que os outros. No fim da época, redimensionada a equipa na sua estrutura, na diversidade de soluções e no seu conhecimento como entidade colectiva, Ferguson foi claro: "Carlos foi a melhor aquisição deste clube nos últimos 20 anos."

4. A contratação de Queiroz pelo Real Madrid consagra a dimensão universal de um português em moldes estranhos a todas as outras actividades da vida nacional. Um homem brilhante a conceber o treino e que no domínio da metedologia é um dos melhores do Mundo; um aluno que estudou para encontrar respostas na ciência e entender o que outros gerem na base da sorte e do azar, do grito que une e do insulto que salva; um professor com preocupações pedagógicas e didácticas para fundamentar uma ideia global do jogo, suporte elementar que muitos nem sabem para que serve. Queiroz volta a ser protagonista de um episódio que inverte a tendência vigente nesta sociedade de aparências, na qual a preguiça de pensar é um atalho para o disparate. O lugar mais apetecido do futebol mundial foi-lhe entregue com base em convicções genuínas. Queiroz não é melhor por chegar ao Real Madrid, mas chega ao Real Madrid por ser muito grande. E isso, se me permitem, faz toda a diferença.

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