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''Catenaccio'' e outras doenças

1 É uma prova de vida regular que o ressuscita como doutrina e desfaz ilusões quanto ao seu desaparecimento: quando menos se espera, o "catenaccio" ressurge ao mais alto nível, associado a uma ideia ganhadora. Desde que Helénio Herrera se interessou pelo conceito defensivo que orientava só os mais fracos, adaptando os fundamentos da estratégia à construção de uma das maiores potências mundiais dos anos 60 (o Inter de Milão), o futebol nunca mais foi o mesmo e a Itália acentuou um estilo que sempre lhe foi querido. O "catenaccio" fez escola, dimensionou a importância da intervenção do treinador, reclamou o excesso da táctica e aceitou como boa a imagem da inteligência, da organização global e do trabalho fanático que valoriza os lutadores obedientes e penaliza os artistas rebeldes. O instinto sai mutilado e a aventura está proibida; o divertimento sofre repressão feroz e o sentido de responsabilidade é estimulado até aos limites.

2 A escola italiana acaba de mostrar à Europa os méritos dos seus alicerces ideológicos: Milan e Juventus, exércitos enquadrados por estudo minucioso que rejeita a inovação; forças que se sentem incomodadas pelo talento e confundem grosserias com o domínio científico do jogo, estão na final da Liga dos Campeões. De um lado, o prazer pela teatralização, o culto da elegância, o bom gosto indiscutível no embrulho do espectáculo, alimentado por uma Imprensa capaz de vender, antes e depois, jogos sem qualquer interesse; do outro, o drama habitual dos grandes futebolistas, penalizados pelos treinadores, mal defendidos pelos árbitros, nem sempre compreendidos pelos adeptos. No Milan, por exemplo, Rivaldo fica no banco, Rui Costa é o primeiro a sair, Pirlo joga cada vez mais perto da sua grande área; Inzaghi, porque sabe onde está metido, faz um golo por cada 100 foras-de-jogo e Gattuso é o herói da comunidade, não por talento, mas por fôlego e entrega.

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3 O "derby" de S. Siro foi o espelho fiel desta realidade: estádio cheio, emoções fervilhantes e um jogo do qual só recordamos o desfecho. Sérgio Conceição confirmou a ideia segundo a qual é jogador a mais para a equipa em que está inserido e Rui Costa já se habituou a viver condicionado pelas opções de um treinador que não o merece. A meia hora do fim, quando o Inter atacava às cegas e o Milan defendia sem sobressaltos, Ancelotti substituiu o português por Ambrosini; no momento em que o adversário corria riscos e oferecia os preciosos espaços para o contra- -ataque, o técnico preferiu entregar-se ao massacre, ao sofrimento e a uma vergonha cujos efeitos só o resultado atenuou. Em Turim, o grande futebol perdeu o seu legítimo representante. A Juventus tirou partido da noite má dos deuses do Real Madrid e ofereceu-lhes a bola como presente, último gesto de boa-vontade antes de os assassinar em três tempos. Figo falhou um "penalty". Também ele tem o direito a um momento mau - a sua vantagem é que nenhum outro tem o aconchego de oito anos sendo um génio.

4 Agora que os media iniciaram a operação Manchester, não é arriscado imaginar que os treinos em Milão e Turim começam no laboratório para aperfeiçoar a fórmula do 0-0 e estão destinados a acabar com sessões de pontapés da marca de grande penalidade - provável centro de decisão da felicidade de uns e tragédia de outros. Mas as meias-finais da Liga dos Campeões tornaram visíveis mais doenças. A arbitragem é um exemplo flagrante: o mesmo Veissière que afastou Hélder Postiga da final de Sevilha com dois preciosismos ridículos, agindo como professor que dá reguadas ao aluno por tropelias insignificantes, permitiu a Materazzi, defesa do Inter, hora e meia de agressões inqualificáveis, sobretudo a Shevchenko. Se a arbitragem europeia promove incompetência, burocracia e demagogia, então os portugueses não destoam: seguem os mestres e só acrescentam o pavor pelos observadores que lhes tratam da carreira.

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