Um jogo de futebol é ele próprio mais as suas circunstâncias. Se tomarmos a primeira parte da asserção como boa, em teoria o Benfica deveria ter ganho o dérbi. Tem manifestamente melhores jogadores, mais opções e é mais equipa. Mas antes do apito do árbitro as circunstâncias estavam longe de ser propícias ao Glorioso: jogadores abatidos física e psicologicamente, um treinador sob pressão e um início de temporada feito à medida do único adversário à altura, o Porto. O empate quase que estava pré-anunciado.
A equipa de futebol avassalador do ano passado, com os mesmos jogadores em campo, desapareceu e, hoje, apenas a espaços se escutam os ecos da torrente atacante de boa memória. Mas, num daqueles acasos que torna o futebol fascinante, as lesões acabaram por se revelar a melhor das opções táticas de Jorge Jesus. Foram de novo as circunstâncias que se revelaram decisivas, desta feita favorecendo o Benfica. Markovic entrou para disfarçar o mal-estar futebolístico da equipa, mas o sérvio surgiu como uma nota dissonante, um solista exímio, ainda que sem orquestra capaz de o acompanhar. Como há sempre esperança, os evidentes lampejos do génio serpenteante de Markovic servem para nos fazer sonhar com o dia em que as circunstâncias – Gaitán, Enzo, Matic e Salvio – vão beneficiar a orquestra encarnada.
Há, contudo, um elemento de surpresa que persiste: a insistência em Cortez. Um jogador que não ataca nem defende. Perdido posicionalmente, não acerta nos cortes, nos passes e muito menos nos centros. Como se não bastasse, com a venda de Melgarejo (ele próprio um lateral com insuficiências, mas que ainda assim fez progressos), o brasileiro encontra-se na posição única de não ter concorrência direta. Depois da teimosia com Roberto e da aposta falhada com Emerson, esperava-se que Jorge Jesus já tivesse aprendido com os próprios erros. Aparentemente não e o fetichismo com Cortez assusta porque indicia que o Benfica pode bem não ser capaz de ultrapassar as circunstâncias que bloqueiam uma equipa de enorme potencial.