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Aqueda do império Espírito Santo é um bom ponto de partida para entendermos a lógica de funcionamento das “famílias” que colonizaram Portugal como um país incapaz de se mover para além do espartilho. Quantos portugueses, pertencentes à casta de uma certa “intelligentzia” nacional, não eram amigos (com e sem aspas), compadres ou meramente dependentes de uma ala espírito-santense? Entre esses portugueses, dos que habitam no centro ou na periferia da classe política, nos grandes escritórios de advogados, na comunicação social, em importantes nichos empresariais, e também nos clubes de futebol, quantos escaparam à tutela? Quantos não beneficiaram de financiamentos excepcionais ou de favores impagáveis?
Foi preciso Portugal rebentar do processo de engorda artificial, alimentado anos a fio e não poder disfarçar mais os sinais comprometedores de bancarrota, para a verdade se revelar de uma forma brutal. As imparidades e as engenharias do sistema bancário fazem parte dos mesmos traços sintomatológicos que contaminam as organizações e as lançam em direcção do colapso. Já se percebeu há muito que o busílis está na natureza da regulação. A regulação (ou a falta dela) é o grande tema deste século. Durante muito tempo, beneficiam sempre os mesmos mas há um momento em que todos pagamos a factura.
A tolerância perante o crime coloca em causa todo o sistema social. No futebol também é assim. Estamos a falar, afinal, das lógicas de fortes corporações, que não admitem – até ao limite do imaginável – o tolhimento das suas dinâmicas. O denominador comum: abuso de certas práticas e rejeição da regulação.
O sistema bancário, em parte, também é responsável pelo estado a que o futebol chegou. Também é responsável pela desconformidade da gestão nos clubes, antes e depois do advento das SAD. Alimentaram a megalomania e o desperdício – e contribuíram para a exaustão financeira do tecido clubístico em contraponto com a engorda de certos protagonistas. Em casos emblemáticos, a gestão dos clubes/SAD já se confundia com a gestão dos próprios bancos. Com intromissões várias. O Sporting esteve à beira do colapso e encontra-se numa situação difícil de reverter. O Benfica e o FC Porto, mesmo com muitas vendas, refugiam-se no argumento do “passivo gerível”. Gerível até quando?
E aos pequenos cabe o papel de “bombos da festa”, amarrados de pés e mãos.
Apesar de todos os sinais de alarme, agravados com o fim do ciclo do financiamento bancário, continuámos a assistir – neste tempo de preparação da época 2014/15 – à exibição dos mesmos caprichos sistémicos. É inacreditável como o Benfica conseguiu desmantelar a equipa que se sagrou campeã nacional e se mostra disponível para contratar, contratar, contratar, quando se percebe que alguns dos contratados não mostram qualidade superior a jovens jogadores portugueses que tardam a encontrar espaço no futebol dos encarnados.
É também difícil de compreender que o FC Porto, em vez de desmantelar ou reequacionar os mecanismos internos na área das transferências de jogadores, tenha “entregue” o futebol a um treinador espanhol de créditos pouco firmados (Julen Lopetegui), mesmo que isso tenha correspondência num certo virar de agulha em relação às habituais dinâmicas de intermediação.
Até o Sporting, o primeiro “grande” a fazer marcha-atrás relativamente ao emagrecimento da estrutura de custos, parece duvidar da vocação de clube formador e foi “pescar” fora do contexto das suas “águas territoriais”.
Parece-me claro que, por este andar, é uma questão de tempo: vai acontecer aos clubes aquilo que já aconteceu a alguns bancos. De tanto inchar, vão acabar por rebentar. E vão rebentar porque estão agarrados à droga que se consome na orgia das transferências...
É neste ambiente que se enquadra a crise que se instalou na Liga. Não é uma crise da Liga, atribuível a este ou àquele presidente. É uma crise institucional do futebol português. É uma crise que revela a escassez de argumentos. É uma crise que denuncia o umbiguismo dos protagonistas. É uma crise que demonstra que esta e outras corporações estão no limite da sua capacidade de resposta. É o paradigma que está em causa. Faliu. As intenções de os clubes (“grandes”) se sentarem à mesa não é nada porque o bloqueio prossegue. Talvez seja importante reflectir nas palavras de Carlos D. Pereira, presidente da AG da Liga: “Quem não quiser entrar no sistema e na roleta deles, quando puser o pé no risco vai imediatamente para o assador.”
Só queria perceber entretanto como é que bons ordenados de administradores dão para vidas tão faustosas. E aqui estamos de volta aos interesses da corporação, aos silêncios, às ameaças e às (teatralizadas) indignações.
Ai arrebenta, arrebenta...
O JARDIM DAS ESTRELAS - ****
Para quê?
A Selecção de Sub-19 perdeu a final do Europeu com a Alemanha, adversário claramente superior, mas fez uma boa campanha e apurou-se para o Mundial. Mantém-se a lógica: Portugal tem bons jovens jogadores mas os bons jogadores são obrigados a emigrar, na falta de oportunidades e na ausência de uma política que os proteja. Siga-se o caso de João Teixeira, no Benfica... Vale a pena ser talento em Portugal?... Que interessa ser ‘revelação’ se depois o caminho está todo minado, propiciando a exclusão?...
O CACTO
"Bad" Dier
Com apenas 20 anos de idade, Eric Dier é um daqueles jogadores que não engana. Tem um grande potencial e uma boa margem de progressão. Concordo que um clube ou uma SAD não podem ficar reféns de jogadores e empresários ou outro tipo de intermediários. O Sporting tem, no entanto, uma longa história de jogadores jovens mal rentabilizados e se é verdade que, lapalicianamente, 5M€-são-5M€, também é verdade que este é um dos tais jogadores que poderia render muito mais dinheiro aos cofres leoninos. Nem o Sporting nem nenhum outro clube devem submeter-se a desenlaces destes, sob pena de colocarem em causa a natureza da gestão desportiva e financeira das suas organizações. Dier é muito melhor do que Maurício e, a menos que esteja muito enganado, Maurício nunca será vendido por um preço semelhante...
Um mau exemplo, a vários níveis. Um ‘bad’ Dier.