Como enganar a televisão?

LUTO – "Às vezes, raras vezes, alguma decisão do árbitro coincide com a vontade do adepto, mas nem assim ele consegue provar a sua inocência. Os derrotados perdem por causa dele e os vitoriosos ganham apesar dele. Coarctada de todos os erros, explicação de todas as desgraças, os adeptos teriam de inventá-lo se não existisse. Quanto mais o odeiam, mais dele necessitam. Durante mais de um século, o árbitro vestiu de luto. Por quem? Por ele. Agora dissimula com cores." Esta é uma visão poética do escritor uruguaio Eduardo Galeano de tema susceptível: serão todos os árbitros merecedores do nosso respeito?

SOCIEDADE – Quando Rui Jorge chama urso a um elemento da equipa que dirige a partida comete infracção merecedora de vermelho directo. Mas se o auxiliar lhe diz com todas as letras "cala-te e corre" alguém com poder superior devia, teoricamente, no mínimo repreendê-lo. Se a palavra do árbitro está para a do atleta nas instâncias desportivas como a do polícia para o do cidadão comum na sociedade, convém ressalvar duas diferenças: no futebol (ainda?) não é crime dizer publicamente que acreditamos na versão do jogador; na sociedade o cidadão pode sempre levar o seu caso a tribunal.

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HABILIDOSOS – Passámos anos a ouvir falar em arbitragens habilidosas sem sabermos se era bom ou mau. Mais grave ainda, sem consciência do que vinha a seguir: os habilidosos bons chegavam mais longe que os outros. Muitos fizeram carreiras assim, baralhando o público e até os próprios jornalistas. Não por malfeitoria mas por instinto de sobrevivência. O tempo criou-lhes um desafio fatal: como enganar a televisão? E não vos falo das grandes decisões, dos “penalties”, dos golos anulados, dos foras-de-jogo polémicos. Falo de uma nova vaga, aqui e lá fora: os árbitros que não decidem.

LONGE DAS ÁREAS – Lembram-se quando o futebol português era o melhor da Europa sem balizas? Multiplicaram-se os juízes cujo objectivo é sobreviver levando a partida para longe das áreas. Os brasileiros chamam-lhes "coluna do meio", porque apitam no centro do relvado, interrompem o jogo de 15 em 15 segundos, quebram o ritmo, não deixam jogar. Adiam sucessivamente o momento de tomar qualquer decisão e salvam-se matando o espectáculo. Utilizando abusivamente as palavras de Galeano, qualquer dia quem está de luto são os adeptos.

LAMENTOS – O Sp. Braga - Sporting, visto tranquilamente pela televisão, acrescenta a este lamento duas situações nas quais o árbitro decidiu apenas para salvar a pele. Antes da marcação de um livre polémico, Jardel quase ficou sem camisola, puxado em exagero pelo marcador; para se reequilibrar e libertar sacudiu por milésimos de segundo o polícia. Resultado: falta de Jardel. A segunda refere-se a um choque legal na área sportinguista: Idalécio salta direito, com os braços colados às pernas; Tiago sai da baliza, corre para a bola e choca com o adversário. Resultado? Falta de Idalécio. Não fosse o diabo tecê-las...

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