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O primeiro ano de Lopetegui no comando técnico do FC Porto deixa um sabor agridoce. Vimos muitas coisas boas e outras más. O treinador espanhol devolveu a competitividade a uma equipa que vinha de uma péssima temporada no ano anterior, realizou uma excelente campanha europeia, valorizou jogadores e contribuiu para o êxito financeiro da SAD. Mas sem troféus conquistados, sobretudo a Liga, acaba por falhar o grande objetivo. O trabalho realizado dá-lhe crédito para continuar o projeto, desta feita sem margem para erro.
Ponto prévio: os portugueses, por uma questão histórica e cultural, têm esta especial característica de olhar de soslaio para tudo o que vem de Espanha. A vinda de um treinador e jogadores do país vizinho acabou por ser o mote para uma campanha contra o técnico ainda antes de este fazer o seu primeiro jogo. Tudo foi servindo para atacar Lopetegui, desde a falta de experiência em clubes (José Mourinho e André Villas-Boas também ouviram disto), a relação com Quaresma, a rotatividade, o modelo de jogo ou as críticas aos árbitros (Jorge Jesus não fez o mesmo noutras alturas?).
Foi neste clima de desconfiança que Lopetegui foi recebido em Portugal. Com 16 jogadores novos, as experiências até encontrar o onze titular acabaram por ser inevitáveis. Podem ter custado pontos, é certo, mas ajudaram a formar a equipa-base. O espanhol trouxe uma ideia de jogo positiva, de futebol ofensivo, baseada na posse de bola, na rápida reação à perda de bola e eficácia defensiva. As dinâmicas foram crescendo ao longo da época e os dragões praticaram futebol de grande qualidade em várias partidas.
Contas feitas, o FC Porto acaba a temporada com a melhor defesa das principais ligas europeias, mesmo depois de ter perdido, em menos de um ano, peças como Helton (por lesão), Otamendi, Mangala e Fernando. E foi também a equipa lusa com menos derrotas em jogos oficiais. Há mérito a reconhecer nestes números, que todavia não permitiram mais do que um 2.º lugar na Liga, que no Dragão é sempre o primeiro dos últimos.
No que toca a aspetos menos positivos muito já foi dissecado sobre o assunto e a ideia geral é que a equipa não passou o teste em momentos decisivos. O jogo no Dragão com o Benfica, que os portistas dominaram mas perderam devido a duas desatenções, os jogos na Madeira com Marítimo e Nacional, em que não aproveitaram escorregadelas do rival, a visita à Luz, onde faltou arriscar um pouco mais, assim como o empate em Belém depois de estar a ganhar, comprometeram as aspirações.
Em jogo jogado, umas vezes melhor e outras pior, o FC Porto foi superior aos adversários. Nem sempre é suficiente para ganhar. É preciso melhorar, ser mais compacto e menos susceptível de percalços. A equipa terá de dar profundidade ao seu futebol, chegando ao último terço do terreno, criando mais oportunidades de golo e evitando a posse de bola estéril. Deve rematar mais de meia distância, para não depender só dos avançados. E embora haja melhorias nas bolas paradas, terá aproveitar os cantos, lances em que o FC Porto sempre foi especialista, mas que este ano não conseguiu rentabilizar.
Seria utópico que após o investimento num treinador e tantos jogadores novos se deitasse tudo às urtigas ao fim de um ano. A remodelação da equipa foi feita e agora o FC Porto só precisa dar continuidade: cobrir eventuais saídas e fazer pequenos ajustes em certos setores. Os dragões serão certamente uma melhor equipa no próximo ano, cientes de que só as conquistas valerão a época.
O CRAQUE
Um avançado exemplar
Com 92 golos em 136 jogos, Jackson Martínez tornou-se rapidamente uma das principais referências do plantel portista nos últimos três anos. Tivemos o privilégio de ter em Portugal um avançado de grandíssima qualidade, que teria lugar em praticamente todas as equipas europeias. Além do seu talento futebolístico, o colombiano é um exemplo de profissionalismo e dedicação. As notícias sobre a sua saída acumulam-se, mas Pinto da Costa já afirmou que pretende segurar o avançado. Seria uma excelente notícia para o clube e para a própria liga portuguesa.
A JOGADA
Recuperar o ADN portista
A falta de mística portista é sempre referida como causa para o insucesso. É importante ter jogadores que sintam a camisola de forma apaixonada e a introdução no plantel de elementos com anos de casa como Rúben Neves e agora de Sérgio Oliveira é de saudar. Mas a política de continuidade também beneficia o ADN portista. Com mais jogos nas pernas dos novos atletas e a ajuda de elementos mais antigos, como Helton ou Ricardo Quaresma, os valores, o espírito de conquista e a garra do clube podem ser apreendidos. Por exemplo, se ficar, Casemiro tem perfil para assimilar esses ideais.
A DÚVIDA
Cultura de exigência
Muitas pessoas ficaram surpreendidas com as mostras de descontentamento dos adeptos e, em particular das claques, do FC Porto no jogo frente ao Penafiel. Numa época em que a equipa prometeu muito, na qual sempre foi apoiada, nos bons e nos maus momentos (até mesmo na derrota de Munique), os adeptos estiveram sempre com ela. É natural que a falta de títulos tenha sido uma desilusão e que estes tenham mostrado o seu descontentamento por sentirem que se podia ter feito um pouco mais em alguns jogos. Será que os jogadores entenderam a mensagem?