Acossado por críticas de comentadores de meia-tigela, Menotti afirmou que cinco minutos à mesa de um café bastariam para desmascarar a ignorância presunçosa dos seus detratores. Vítor Pereira não precisaria de tanto tempo.
1 As respostas emocionais dos adeptos não têm vínculos consolidados com a razão; reduzem-se a reações impulsivas e passionais de circunstância, que relativizam a importância da fidelidade à causa ou as convicções relativas ao talento de jogadores ou treinadores. Têm um sentido de imediato tão claro que não permitem olhar para o fundo da questão. Vítor Pereira não resistiu ao lastro de popularidade deixado por André Villas-Boas; não chegou ao coração dos adeptos mas deu resposta positiva em termos de resultados – campeão nacional em 2011/12. A confiança no trabalho do timoneiro é mais fácil em ciclos de sucesso, prova de que as massas, em geral, são mais reconhecidas e sensíveis à vitória do que ao futebol de qualidade.
2 O FC Porto pode ser o que quisermos chamar-lhe mas não uma equipa improvisada, na qual as coisas acontecem por acaso; não é também um pelotão a marchar na parada, porque há talento não reprimido na estratégia e no modelo utilizado para atingir o objetivo. Vítor Pereira consolidou os princípios da equipa que, em Portugal, melhor se expressa em ataque organizado; no modo como se une à volta da bola e procura, em movimentações cada vez mais participadas, desbravar caminho para a baliza adversária, fazendo-o com segurança processual que chega a ser irrepreensível. Entre janeiro e fevereiro, tendo os jogos de Guimarães e com o Málaga no Dragão como expoentes máximos, os portistas aproximaram-se de alguns elementos do tiki-taka – a pressão alta e uma transição defensiva a roçar a perfeição.
3 Jorge Valdano defende que a ciência é adulta em demasia para os gostos infantis do futebol, sugerindo que a complexidade da ação também pode e às vezes deve explicar-se recorrendo ao senso comum e ao apelo das verdades mais simples. O problema é que essa expressão básica do entendimento futebolístico começa a ser curta para entender toda a extensão do jogo, do espetáculo e do fenómeno social. Vítor Pereira pode ter alimentado ao longo de duas temporadas a imagem de líder precário. Mas é justamente agora que agregou imagem e discurso ao saber como treinador de méritos reconhecidos; agora que se mostra mais forte, confiante e com outra bagagem para gerir o embate mediático num grande clube, que está a ver chegar ao limite do razoável críticas desrespeitosas e mal-educadas ao seu trabalho.
4 Vítor Pereira tem sido vítima recorrente de vampiros do mérito alheio. De adeptos comuns que, impulsionados pela fama consolidada noutras áreas e pela arrogância de um saber que julgam ter, acham-se no direito de denegrir o trabalho e a competência de quem passou uma vida inteira dedicada ao futebol; a estudá-lo todos os dias e a aumentar a base científica do conhecimento. Numa época de massificação opinativa, é difícil fazer vingar a ideia de que não existem bons ou maus treinadores só porque fazem boas ou más substituições; porque dizem o correto ou preferem a asneira. Em tempos acossado por críticas primárias de comentadores de meia-tigela, César Luis Menotti não esteve pelos ajustes e afirmou que cinco minutos à mesa de um café seriam suficientes para desmascarar a ignorância presunçosa dos seus detratores. Vítor Pereira não precisaria de tanto tempo.
Tiki-taka oscila sem mestre Xavi
Os catalães chegaram ao fim do jogo com cerca de 65% de posse. O jogo com o Bayern confirmou que as grandes equipas são aquelas que têm as melhores ideias e os jogadores certos para lhes dar forma, desde que em condições físicas e mentais aceitáveis. O pecado do Barça foi cumprir o guião sem dinâmica e intensidade. Messi foi um fantasma, Iniesta ficou-se pelos pormenores e, mais grave, Xavi fez e pensou tudo devagar. O tiki-taka resistirá à desinspiração dos artistas mas não ao fim de quem o põe a funcionar. E, atenção, o mestre já tem 33 anos.
Estanho sufoco do Real Madrid
Se há um ano por esta altura as grandes equipas espanholas debatiam-se com o desgaste da Liga interna, e por isso não passaram das meias-finais da Champions, desta vez prepararam-se com tempo e rigor para a glória europeia. É incrível como o Real Madrid, que já tinha perdido o campeonato em outubro, se apresentou em Dortmund: uma equipa cansada, física e psicologicamente; sem velocidade, nem força, nem talento para se impor perante adversário no pico da motivação. O sufoco por que passou a equipa de José Mourinho na Alemanha foi das coisas mais estranhas dos últimos anos.
Desastre certo sem boa gestão
O treinador benfiquista já disse que não voltaria a cometer o erro de negligenciar, por um instante que fosse, a competição nacional. Jesus não arriscou tudo frente ao Fenerbahçe porque, a quatro jornadas do fim da Liga, tinha de guardar energias para o embate com o Marítimo – se vencer nos Barreiros, o Benfica passa a depender dos jogos em casa com Estoril e Moreirense para ser campeão. Mas a realidade tem um horizonte ainda mais amplo: menos de 72 horas depois de jogar na Madeira defronta outra vez os turcos. Sem uma boa gestão do plantel, o desastre está ao virar da esquina.