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O futebol raramente aceita zonas cinzentas, embora seja nelas que muitas vezes se revele a verdade mais profunda de uma equipa. Depois de um empate na estreia, ou se celebra uma equipa em construção, ou se anuncia uma crise. Entre esses dois extremos sobra pouco espaço para a serenidade, que é quase sempre a primeira vítima da pressão externa. Foi exatamente nesse intervalo que Portugal ficou preso após o primeiro jogo, num cenário em que o resultado não convenceu, a exibição deixou dúvidas e a pressa em julgar cresceu mais depressa do que a própria reflexão.
A equipa teve posse de bola, mas faltou-lhe clareza. Houve circulação, mas nem sempre houve profundidade. Houve incerteza e ansiedade. O talento existe, mas a identidade demora a consolidar-se. O suficiente para que surgissem fortes críticas, muitas delas centradas em Cristiano Ronaldo. Aos 41 anos, qualquer exibição menos conseguida do capitão reacende inevitavelmente o debate sobre a sua titularidade, a sua influência e o lugar que continua a ocupar no onze.
Para alguns, Portugal ganharia fluidez sem uma referência tão dominante. Roberto Martínez escolheu outro caminho. Sem dramatizar o empate nem alinhar na pressão exterior, o selecionador manteve a confiança na equipa e no seu capitão.
A resposta surgiu diante do Uzbequistão. Portugal apresentou-se mais agressivo e mais eficaz. A circulação de bola ganhou velocidade, verticalidade e objetividade. Os movimentos ofensivos tornaram-se mais naturais e a equipa revelou uma capacidade de finalização que tinha faltado no primeiro jogo. O resultado expressivo alterou profundamente a perceção do momento. Também Cristiano Ronaldo beneficiou desse novo contexto para responder às críticas mais demolidoras. Martínez, ao insistir na sua utilização, reforçou uma ideia de liderança racional e de controlo emocional que vai para além de qualquer crítica ou estatística.
Portugal continua à procura de consistência. O futebol, como qualquer processo de crescimento, exige continuidade. Não basta encontrar respostas uma vez; é preciso demonstrar que elas resistem ao teste do tempo.
É precisamente por isso que o jogo contra a Colômbia assume uma importância especial. A seleção sul-americana representa um adversário mais exigente, capaz de testar a organização portuguesa através da sua qualidade individual e agressividade competitiva. A Colômbia está entre as seleções que mais corresponderam às expectativas até agora: organizada, eficiente e com potencial para surpreender as favoritas tradicionais. Será um jogo que permitirá perceber se a melhoria exibida frente ao Uzbequistão foi apenas uma reação circunstancial ou o sinal de uma verdadeira evolução coletiva.
Entre o alarme e a resposta, Portugal já mostrou que nem tudo estava em crise. Agora falta provar que também nem tudo depende do momento. Porque o equilíbrio de uma equipa não nasce da ausência de falhas, mas da capacidade de não se deixar definir por elas. E é muitas vezes nesse espaço, entre a dúvida e a convicção, que começam a crescer as seleções capazes de chegar longe.
Por Rui Faria