Coração de leão

Coração de leão

A deserção de Ricardo Carvalho da Seleção Nacional foi inadmissível. Mas o aproveitamento que Paulo Bento está a fazer desse erro censurável é oportunístico e vingativo. E mostra bem a diferença entre mandar e liderar.

Ricardo Carvalho é um dos nossos melhores centrais de sempre. Sempre apareceu discreto e cumpridor, bem-educado, cavalheiro, um Cary Grant da bola. Por isso o seu ímpeto foi ainda mais surpreendente. A maneira como abandonou a Seleção depois de saber que não seria titular foi uma birra de vedeta. Carvalho portou-se como um menino mimado. Pior: como um menino mimado que já não é menino. A idade não perdoa e o defesa tem mais anos para trás do que pela frente nos relvados. E a decadência bate um dia à porta. Uns, como Nuno Gomes, descem a escadaria. Outros, como Ricardo Carvalho, batem como a porta. E ficam sozinhos.

PUB

Mas não foi uma traição à pátria. Ricardo Carvalho tinha “folha limpa”, deu muito à Seleção e merecia a tolerância de umas horas para esfriar a cabeça, uma segunda oportunidade. Aliás, ele reconheceu o erro. Mas nessa altura já era tarde para pedir desculpas: já estava a defender a honra.

Paulo Bento bateu os punhos no peito como um Tarzan. É-lhe conveniente, pois cerra fileiras na Seleção e afirma-se contra Carvalho como Scolari um dia se entrincheirou contra Vítor Baía. Como uma vantagem: Bento tem o país consigo. É populista esmagar Carvalho. Só os líderes seguros de si mesmos conseguem ser magnânimos e defender os jogadores até das suas próprias fraquezas. Porque está na cara que Carvalho está arrependido da deserção. Mas não de se ter indignado contra as palavras de Bento.

Paulo Bento venceu o combate. A Seleção perdeu um jogador. E esse jogador perdeu o respeito que conquistara. Se fosse com Ronaldo a bravata teria sido a mesma?

PUB

Deixe o seu comentário
PUB
PUB