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Deco e o livro de Scolari

1. Se a selecção nacional é um rosto fiel do País que representa, então os seus traços vinculam a cultura dos povos que as suportam; se nos clubes a vida é longa, rotineira e encarada na perspectiva do profissionalismo, nas selecções tudo é curto, grandioso e apaixonante; se os clubes alimentam o calendário e despertam um entusiasmo prolongado durante meses, nada se compara ao efeito devastador que rodeia a entrada em cena das selecções, prova de que o conceito de Pátria é um dos simbolismos mais misteriosos do futebol – e só não é perigoso porque a inocência e bondade que lhe estão subjacentes esmagam qualquer ameaça de perversidade. A nossa selecção chama-se Portugal e na relação de afecto há compromissos indestrutíveis com as origens, com as marcas da infância e com os sinais que nos aproximam da escola, da rua e da História.

2. As representações nacionais têm um código genético e a todas se exige que respeitem a tradição, o carácter e o estilo predominante. Ver alemães a dar toques de calcanhar é tão absurdo como imaginar ingleses a discutir com os árbitros; admitir que espanhóis possam perder sem lutar é tão estranho quanto ver italianos mal vestidos recusando a teatralização de vitórias e derrotas; esperar que sul-americanos dêem a outra face tem o mesmo grau de improbabilidade de os africanos orientarem a conduta por guiões que proíbam a magia. Deco é um dos melhores do Mundo, brasileiro de nascença e português desde anteontem; é um génio da bola, vai jogar com as quinas ao peito e não por acaso só isso afectou a admiração entre os novos compatriotas. O desafio é de alto risco e para o vencer não chega anunciar que vai cantar o hino, leveza de quem não mediu a distância entre a solenidade máxima de um jogo de selecção e saber de cor um tema de Chico Buarque.

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3. Rui Costa afirmou não ser capaz de jogar por outro País que não o seu. E foi mal interpretado, como Luís Figo já fora na Suécia – sempre que as grandes figuras do futebol português não dizem amém, ninguém as percebe e quase todos as criticam. Basta ler "Scolari – a alma do penta" para confirmar, por exemplo, que dificilmente poderia, Rui Costa ou qualquer outro jogador português, sentir-se confortável no ambiente do escrete que Felipão criou e agora retrata à medida das mais profundas raízes do povo brasileiro. No livro estão a descrição do ambiente, os elos entre o grupo, os discursos inflamados, a linha ideológica da união inquebrável. Todo um cenário no qual cabem alusões a voos de gansos, a orações colectivas e ao apelo escrito que lançou o jogo com a Inglaterra: "Eu sei que, se eu ainda vivo, é porque estou disposto a lutar e a morrer pelas vitórias. (...) Isso é uma equipe! Isso é futebol! Isso é Brasil! Isso somos nós!!!"

4. Scolari mediu o perigo de más interpretações e agiu com elevação no caso Deco. A Felipão pode faltar fluidez no discurso, sentido de humor e talento para a ironia, mas é intocável na verticalidade, nas intenções, no pragmatismo, na autenticidade e no esforço para se adaptar a meios desconhecidos. Não tem de preocupar-se, porque já todos avaliámos a sua inocência no processo que levará o "mágico" a jogar frente ao Brasil, indignidade fundamentada filosoficamente pelo "Maria vai com as outras" – porque lá fora ainda hoje se faz e em Portugal, noutros tempos, já se fez. A legitimidade de Deco jogar por Portugal tem o suporte da lei, mas transgride os princípios da ética, da honra, do orgulho, do compromisso e da paixão; é um reforço para a equipa (embora difícil de enquadrar técnica e tacticamente), mas não desfaz o palpite incómodo da cedência a valores estranhos aos fundamentos de uma selecção. Que o importante é ganhar? Sim, porque ninguém joga para perder; não, se for para ganhar a qualquer preço.

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