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Donos da rede

CARRIZO – Quando Amadeo Carrizo, o argentino que defendeu a baliza do River Plate e da Argentina nos anos 50, afirmou que um guarda-redes só se faz depois de sofrer mil golos, estava a cometer um exagero. Ele, um dos maiores de sempre, sabe quais as etapas para atingir a eternidade e alertou apenas para o facto de o percurso entre o talento puro e o lugar na história, no caso dos guarda-redes, ser sinuoso, longo e não se compadecer, normalmente, com as primeiras impressões e os elogios de circunstância. Nas suas palavras está o essencial: o guarda-redes só atinge dimensão total a partir do momento em que emitir sinais seguros de confiança, moral, intimidação e experiência. Numa só palavra, quando tiver autoridade.

RICARDO – Ricardo já passou pela fase da emoção prematura que lhe alimentou a esperança e pela exagerada decepção que o fez desacreditar; já viveu os momentos de glória efémera que o devolveram à estaca zero, de onde reiniciou a grande caminhada mais desconfiado e prudente, mas também mais forte. Tem hoje o mesmo potencial de há meia dúzia de anos, mas já subiu vários andares do grande prédio. Quando voltou a dar sinais de vida, a época passada, no arranque do Boavista para o título, não foi por uma tarde ou noite em grande, mas por um conjunto de exibições que o levaram à selecção nacional. O tempo foi passando e deixou de ser falado porque o efeito surpresa já lá vai. Nada de mais: está apenas a cumprir, tranquila e seguramente, o trajecto normal de um grande guarda-redes.

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MOREIRA – Por outras palavras, está a criar condições para se moldar aos princípios da tal autoridade indispensável aos verdadeiros donos da rede. Por esta ou aquela razão, ao longo da temporada falou-se muito de Tiago e Nélson; de Yannick e Enke; de Quim e Costinha. E pouco de Ricardo, o que, em boa verdade, só o tem beneficiado. Na jornada do passado fim-de-semana, Moreira ocupou o lugar na baliza do Benfica e, por acaso ou não (tanto faz...), interrompeu série de 13 jogos a sofrer golos. Quando Enke decidiu – logo, uns meses largos antes de o anunciar publicamente – que não continuaria na Luz, o Benfica respondeu com a sua manutenção entre os postes e a contratação de outro guarda-redes. Agiu como se Moreira não existisse ou como se não valesse a pena dar-lhe uma verdadeira oportunidade de meia dúzia de meses, para ver de que matéria é feito para lá do talento natural.

VÍTOR BAÍA – Quem já percorreu todas essas etapas e muitas outras – razão pela qual está habilitado a dar lições sobre todos os caminhos que levam ao topo – é Vítor Baía. Um dos expoentes máximos da história do jogo em Portugal, que de classe, estatuto, comando, experiência e autoridade tem a conta certa, passou ultimamente por avanços e recuos em consequência de sucessivas lesões. Um obstáculo desnecessário, logo na fase da carreira, depois dos 30 anos, em que devia atingir a plenitude de cada uma das suas qualidades, quase todas as necessárias a um grande guarda-redes. O cenário dos últimos quatro anos e meio tornou-o vulnerável e menos confiante, mas até a esse perigo tem sabido responder com segurança e, sobretudo, com a força para manter acesa a ilusão e alimentar o sonho. Não é um simples pontapé mal dado, quando o jogo estava decidido e toda a equipa deixara de pensar, que vai pôr em causa tudo quanto fez até agora.

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